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Início / China e a infraestrutura do agronegócio brasileiro: parceria ou dependência?

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  • 01/06/2026

China e a infraestrutura do agronegócio brasileiro: parceria ou dependência?

Sumário

A próxima grande disputa pelo futuro do agronegócio brasileiro talvez não esteja acontecendo em Brasília nem em Wall Street. Ela passa por corredores logísticos, ferrovias e portos — e a China está no centro desse jogo. Entender a infraestrutura do agronegócio brasileiro nunca foi tão urgente quanto agora.

O paradoxo da superpotência agrícola sem logística

O Brasil se tornou uma das maiores potências agrícolas do mundo antes de resolver seus gargalos de transporte. Essa é uma contradição que custa caro a cada safra.

Na safra 2024/2025, a produção brasileira de grãos ultrapassou 350 milhões de toneladas. As exportações do agronegócio superaram 164 bilhões de dólares. São números impressionantes — e, ao mesmo tempo, enganosos.


Números que contam a história

  • Mais de65% das cargas totais do Brasilainda saem por rodovias
  • No agronegócio, a dependência rodoviária é ainda maior
  • Cerca de28% das exportações brasileirasjá têm a China como destino
  • O déficit de investimento em transporte e logística é de pelo menosR$ 149 bilhões/ano (KPMG, 2022)

É como instalar o motor mais potente do mundo num caminhão e continuar dirigindo numa estrada cheia de buracos. O produtor investe em tecnologia, sementes de alta performance, manejo de precisão e genética animal. Mas após a porteira, parte do lucro some em frete caro, filas nos portos e congestionamentos nos corredores rodoviários.

Esse gargalo logístico não é novidade. O que é novo é quem aparece para preenchê-lo.


Por que a China entrou no tabuleiro logístico do Brasil?

A China possui três ativos que muitos países procuram ao mesmo tempo: capital abundante, capacidade de engenharia em escala industrial e velocidade de execução. Mas ela também tem necessidades próprias muito claras.

Pequim precisa garantir segurança alimentar, energia, minerais críticos e rotas de abastecimento estáveis para uma economia de 1,4 bilhão de pessoas. Quando empresas e estatais chinesas investem em portos e ferrovias no Brasil, não estão apenas construindo obras civis. Estão redesenhando rotas de abastecimento, reduzindo riscos e ampliando influência geopolítica.

“Infraestrutura não é só engenharia. É geopolítica aplicada. Quem controla as rotas de escoamento define quem captura o maior valor da cadeia.”

Esse movimento ganhou escala nos últimos anos. Investimentos chineses no Brasil já somavam US$ 379 milhões apenas no primeiro semestre de 2025 — o maior volume desde 2018 —, segundo dados do Banco Central. E isso considerando apenas os registros oficiais de participação de capital.

Mais de 200 empresas chinesas já atuam no Brasil em energia, tecnologia e infraestrutura, com promessa de aportes superiores a R$ 200 bilhões até 2030.

Os projetos concretos: o que a China já está construindo no Brasil

Sair da teoria exige olhar para o mapa. Vários projetos ligados à infraestrutura logística do agronegócio já estão em andamento.

Veículos elétricos e reindustrialização

Na Bahia, a BYD assumiu o antigo complexo da Ford em Camaçari. A expectativa é chegar a 150 mil veículos produzidos por ano, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. Em São Paulo, a GWM ocupa uma antiga planta industrial com capacidade inicial em torno de 50 mil veículos/ano.

Mais recentemente, a CRRC — uma das maiores fabricantes de trens do mundo — abriu fábrica em Araraquara (SP) e firmou contrato de R$ 3,1 bilhões para fornecer 44 novos trens ao Metrô de São Paulo.

Energia e transmissão

A State Grid opera no setor mais estratégico da economia: a rede que leva energia das usinas até empresas e consumidores. Seus investimentos no Brasil já acumulam bilhões — e a empresa lidera obras de transmissão avaliadas em R$ 18 bilhões.

Portos e exportação de commodities

No Porto de Santos, a expansão do terminal STS11 pode elevar a capacidade de movimentação para cerca de 14 milhões de toneladas anuais — três a quatro vezes a capacidade atual. A Cofco, gigante estatal chinesa de alimentos, também constrói um terminal de grãos em Santos.

A CCCC (China Communications Construction Company) mira o ambicioso túnel Santos–Guarujá e negocia participação no megaterminal Tecon 10.

Empresa / ProjetoSetorLocalizaçãoImpacto esperado
BYDVeículos elétricosCamaçari, BAAté 150 mil veículos/ano
GWMVeículos elétricosIracemápolis, SP~50 mil veículos/ano
CRRCTrens / MobilidadeAraraquara, SP44 trens — R$ 3,1 bi
State GridTransmissão de energiaNacionalR$ 18 bi em transmissão
CofcoTerminal de grãosPorto de Santos, SPExportação de commodities
CCCCPortos / ObrasSantos, SPTúnel Santos–Guarujá; Tecon 10
Ferrovia BioceânicaFerroviaIlhéus (BA) → Chancay (Peru)4.400 km; -30% custo de exportação

A Ferrovia Bioceânica e a FIOL: o maior tabuleiro em jogo

Nenhum projeto ilustra melhor a dimensão do que está sendo disputado do que a Ferrovia Bioceânica Brasil–Peru.

A ideia é conectar o porto de Ilhéus, na Bahia, ao porto de Chancay, no Peru — um trajeto de aproximadamente 4.400 km que atravessaria Goiás, Mato Grosso, Rondônia e o Acre antes de cruzar a Cordilheira dos Andes. Em julho de 2025, Brasil e China assinaram memorando de entendimento para iniciar os estudos técnicos, ambientais e econômicos.

A peça central no lado brasileiro é a FIOL — Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Com 1.527 km de extensão ligando Figueirópolis (TO) ao porto de Ilhéus (BA), a FIOL passa por regiões-chave do agronegócio, incluindo o Matopiba. O projeto prevê investimentos de R$ 28,7 bilhões nas concessões da FIOL e da FICO (Ferrovia de Integração Centro-Oeste).

Se concluída, a Ferrovia Bioceânica pode reduzir em até 10 dias o tempo de transporte de commodities brasileiras até a Ásia, comparado ao caminho atual pelo Atlântico. Estimativas apontam redução de até 30% nos custos de exportação para produtores de soja e milho do Centro-Oeste. O projeto pode ainda gerar 50 mil empregos diretos durante a fase de obras.

A ministra Simone Tebet definiu o projeto como “uma revolução”. Mas especialistas apontam desafios reais: o custo total pode variar de US$ 10 bilhões a US$ 80 bilhões, dependendo do traçado pela Cordilheira dos Andes. E há questionamentos sobre viabilidade técnica, impactos ambientais e riscos de endividamento.

O Arco Norte e o Sul Global: muito além do Brasil

O interesse chinês não se limita ao corredor atlântico. O chamado Arco Norte — conjunto de rotas logísticas que conecta o Centro-Oeste e o Norte do Brasil a portos do Nordeste e Norte — também está na estratégia. A China é a maior compradora de soja brasileira e tem interesse direto em rotas mais baratas e seguras para receber commodities.

O porto de Chancay, no Peru, recebeu investimento de US$ 1,3 bilhão da Cosco Shipping — o maior aporte chinês individual na América do Sul — e deve se tornar o principal hub de saída de cargas sul-americanas para a Ásia via Pacífico.

A visão chinesa é sistêmica: diferentes empresas estatais e privadas alimentam umas às outras, formando uma cadeia integrada que vai de terminais de grãos e redes elétricas até fábricas de veículos e sistemas ferroviários. É o Sul Global como peça de uma estratégia de longo prazo.

Parceria ou dependência? O dilema que a África já viveu

A experiência internacional oferece lições importantes — e nem todas são animadoras.

O Porto de Lekki, na Nigéria, mostra o potencial transformador dos investimentos chineses em infraestrutura. Já o LAPSSET, no Quênia, ilustra o lado mais difícil dos megaprojetos: promessas de integração regional podem esbarrar em atrasos, conflitos sociais, impactos ambientais, revisões contratuais, endividamento e execução desigual.

Uma ferrovia pode servir a dois projetos completamente diferentes. No primeiro, ela conecta indústria, empregos qualificados, tecnologia e fornecedores locais. No segundo, ela apenas acelera o transporte de soja ou minério até os portos.

Nos dois cenários, a ferrovia funciona. Mas o resultado econômico é radicalmente diferente.

O que o Brasil tem de diferente

O Brasil não chega a essa negociação sem cartas na mão. O país possui escala produtiva, mercado interno relevante, energia abundante (especialmente renováveis), recursos estratégicos, alimentos e peso geopolítico crescente. Isso cria margem para negociar com mais protagonismo.

Mas o investimento estrangeiro não vira desenvolvimento automaticamente. Isso só acontece quando se cria capacidade interna: indústria, tecnologia, emprego qualificado, fornecedores locais, absorção de conhecimento.

🔍 A pergunta que muda tudo

  • Os investimentos vão reduzir o custo logístico e aumentar a competitividade?
  • Vão contribuir para a reindustrialização de parte da economia?
  • Vão desenvolver fornecedores locais e gerar empregos qualificados?
  • Vão permitir absorção de tecnologia e agregar valor à produção?
  • Ou vão apenas tornar mais eficiente a exportação de matérias-primas brutas?

Conclusão: quem define o propósito da construção?

A pergunta inicial continua de pé: quem está construindo a infraestrutura que o Sul Global precisa? Hoje, a resposta mais honesta é: em grande parte, a China.

Mas talvez essa não seja a pergunta mais importante. A questão decisiva não é quem constrói. É quem define para que a construção serve.

Os próximos cinco a dez anos serão determinantes. Eles mostrarão se o Brasil conseguirá usar esse ciclo de investimentos para ampliar sua competitividade, reindustrializar setores estratégicos, desenvolver fornecedores locais e agregar valor real à produção agrícola. Ou se essas obras vão apenas tornar mais eficiente um modelo que o país conhece há séculos: o de exportador de matérias-primas.

Você que acompanha o agronegócio de perto sabe que a logística importa tanto quanto a produtividade na lavoura. O custo do frete come o lucro do produtor. A ferrovia que chega à fazenda não é só infraestrutura — é rentabilidade, acesso a mercado, soberania na negociação.

Sabemos exatamente qual futuro queremos construir?

Parceria estratégica ou risco de dependência?

Deixe sua opinião nos comentários — essa discussão está só começando e pode definir o agronegócio das próximas décadas.

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Maria Eduarda Botelho

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