Sucessão familiar no agro: Quando a realidade bate à porta Publicado em:

As empresas familiares têm se destacado na economia mundial e no mercado brasileiro. Dados estimam que no mundo, 80% das empresas sejam familiares. No Brasil, esse número cresce, chegando a um total de  90% dos negócios (EXAME, 2019). Em se tratando especificamente dos negócios rurais, esse número é ainda maior. De acordo com MacDonald, Korb e Hoppe (2013), em uma pesquisa realizada em solo americano, 96% dos negócios rurais são familiares.

Assim, com essa grande presença dos negócios familiares no mercado mundial, a sucessão nos negócios torna-se, hora ou outra, uma questão a ser resolvida, a fim da continuidade do empreendimento. Por isso é tão crucial, independente do formato do porte do empreendimento ou das condições de liderança. Mesmo assim, apenas 19% dos empreendimentos familiares têm um plano ou “estratégia” de sucessão (PWC, 2016), ainda que muitas informalmente traçadas.

 

Quais os caminhos para uma boa sucessão?

Não sendo uma tarefa fácil e rápida, um bom processo de sucessão compreende diversas ações, eventos e mecanismos organizacionais e legais pelos quais a liderança da empresa transfere ao sucessor (HILLEN; LAVARDA, 2019), que engloba a criação de processos, organização de documentos e transferências de poderes, ou seja, planejamento! Certamente há uma “pitada” de tradição e costumes, que devem andar em sintonia, para que o empreendimento não perca suas características fundamentais.

Em se tratando de empresas familiares, o diálogo é a chave para buscar alternativas para tornar a sucessão um processo sem ruído e conflito, já que fatores do passado, expectativas e obrigações futuras são fatores intrínsecos a esse processo. A sucessão na agricultura envolve, dessa forma, mais que a continuidade das propriedades, envolve o destino de várias regiões, devido ao forte papel social e cultural que o desempenho agrícola exerce na economia de muitas regiões (STUANI; NECKEL; FICAGNA, 2016).

Antes de aprofundarmos nesse assunto, já que um dia ele poderá fazer parte da nossa realidade, vamos entender como a constituição do próprio agricultura na nossa região formou o emaranhado de valores e tradições que permeiam o processo decisório no campo.

 

Importa saber como se consolidou o agro?

Diria que mais do que você imagina! A forma como foi consolidado a agricultura é a chave para entender o seu comportamento na contemporaneidade. Bem, antes de tudo, importa saber que o processo colonizador do Brasil foi muito homogêneo nos primeiros três séculos: Extrativista!

No caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, as questões fronteiriças (por ser uma região limítrofe entre terras portuguesas e espanholas) foram norteadoras no processo de colonização e, consequentemente, o início das atividades relacionadas a agricultura e pecuária. A primeira tentativa governamental de intensificar a presença portuguesa foi em meados de 1750, com a chegada dos imigrantes açorianos (MANTELLI, 2006).

Quase 100 anos depois, em uma segunda leva, imigrantes alemães e italianos na sua maioria, moldaram a realidade do estado, encontrando as bases necessárias para trabalhar no campo, uma vez que eram em grande parte agricultores, onde, nesses primeiros tempos, centraram os esforços agrários no plantio da erva-mate (herança dos hábitos indígenas) e outras culturas para subsistência (LUVIZOTTO, 2009).

Percebemos, dessa forma, que organização social constituída a partir da formação socioeconômica do Brasil-império permeia os alicerces da sociedade agrária nacional atual, marcado muito pela heterogeneidade. No Brasil a agricultura familiar é heterogênea, incluindo famílias pobres, que detêm pouca terra e em situações precárias e famílias que possuem mais recursos, como capacitação, organização, conhecimento (STUANI; NECKEL; FICAGNA, 2016), conforme observamos nos dados apresentados no início deste texto.

Esses aspectos regem a forma de viver “no campo” e impacta nas decisões sucessórias, somados a outros fatores, como: Quantidade de terras, número de herdeiros, escolaridade, localização, tecnologia empregada na produção, entre outros. A complexidade da integração rural-urbana, industrial-agrícola, fazem parte da conformação atual e do padrão de fazer agricultura que vigora, destaca Kischener, Kiyota e Perondi (2015), somado, sobretudo, aos valores e tradições que constituem a sociabilidade daquela família.

 


Referências para este artigo:

EXAME. Empresas familiares assumem liderança de mercado. 2019. Disponível em: . Acesso em: 2 fev. 2020.

HILLEN, C.; LAVARDA, C. E. F. Orçamento e ciclo de vida em empresas familiares em processo de sucessão. Revista Contabilidade & Finanças, 2019.

KISCHENER, Manoel Adir; KIYOTA, Norma; PERONDI, Miguel Angelo. Sucessão geracional na agricultura familiar: lições apreendidas em duas comunidades rurais. Mundo agrario, v. 16, n. 33, 2015.

LUVIZOTTO, Caroline Kraus. Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul. 2009.

MACDONALD, James M.; KORB, Penni; HOPPE, Robert A. Farm size and the organization of US crop farming. 2013.

MANTELLI, J. O processo de ocupação do noroeste do Rio Grande do Sul e a evolução agrária. 2006. Disponível em: <http://repositorio.furg.br/handle/1/1093>. Acesso em: 10 fev. 2020.

PWC. Pesquisa Global sobre Empresas Familiares 2016. FWC, 2016. Disponível em . Acesso em: 01 fev. 2020.

STUANI, C.; NECKEL, A.; FICAGNA, A.V.O. Jovens herdeiros: uma análise da sucessão familiar em pequenas propriedades rurais de Nova araçá. IN.: Encontro de Estudos sobre Empreendimentos e Gestão de Pequenas Empresas. Passo Fundo, 2016.

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