Manejo do solo: Chave para a manutenção da alta produtividade no agronegócio Publicado em:

Nesse material você vai entender um pouco mais sobre:

  • O que é o manejo do solo, qual sua importância
  • Quais as práticas que o compreende
  • Quais os benefícios que traz
  • Porque é considerado chave na busca por altas produtividades

 


 

Introdução

O solo é considerado o principal substrato para o crescimento e desenvolvimento das culturas, sendo o seu manejo uma etapa importante no processo produtivo. Isso porque, se for realizado de forma incorreta, poderá acarretar em inúmeros problemas, tanto na queda de produtividade e perda de recursos socioeconômicos, como na qualidade do solo e ao meio ambiente, devido ao uso excessivo de maquinários e uso indiscriminado de fertilizantes químicos. 

O solo pode ser definido como a camada biologicamente ativa formada a partir do processo de intemperismo das rochas, da influência da fauna do solo e da ciclagem dos nutrientes. A manutenção da sua qualidade garante a manutenção da capacidade produtiva das culturas de interesse, além de contribuir para manter outros serviços ambientais importantes, tais como a qualidade dos recursos hídricos, o equilíbrio dos gases da atmosfera (responsáveis pelo efeito estufa) e a biodiversidade como um todo (Primavesi e Primavesi, 2003; Lopes e Guilherme, 2007).

De forma geral, o solo é formado por três fases: sólida, líquida e gasosa. A fase sólida corresponde a 50% do solo, enquanto a fase líquida + gasosa corresponde aos demais 50% (25%/cada). A fase sólida corresponde aos minerais do solo, que representam de 45-48%, enquanto a matéria orgânica do solo corresponde de 2-5% (Novais e Mello, 2007).

As fases do solo apresentadas na figura 1 mostram proporções que indicam um solo com uma boa estrutura e, consequentemente, uma boa qualidade. No entanto, as práticas de manejo são capazes de atuar diretamente nessas proporções, principalmente no teor de matéria orgânica e na proporção dos poros. O manejo não é capaz de alterar as proporções dos minerais do solo, mas a fase sólida compreende também os agregados, que são partículas secundárias, formadas a partir das partículas primárias (silte, argila e areia), que são ligadas aos compostos orgânicos e inorgânicos (óxidos de ferro e alumínio) do solo e apresentam papel fundamental na manutenção da matéria orgânica do solo e, com isso, é de suma importância para a manutenção da qualidade, porosidade e boa estruturação do solo (Bronick e Lal, 2005; Buol et al., 2011).

Uma das principais consequências do manejo inadequado é o processo erosivo do solo, que promove perdas das camadas superficiais, que são as mais ricas em atividade biológica e matéria orgânica. Os dois principais tipos de erosão que ocorrem no Brasil são: a hídrica (Figura 1), que corresponde a 56% da perda total de solo e a eólica, que representa 28%. Elas podem atuar de maneira isolada ou em conjunto, o que potencializa ainda mais os danos do processo erosivo (Lepsch, 2010; Zonta et al., 2012). De acordo com relatório da FAO (Status of the Wolrd’s Soil Resources), com participação da EMBRAPA, 33% dos solos do mundo estão degradados como consequência do manejo incorreto. No Brasil, essa degradação gera inúmeros prejuízos, como demonstrado por Telles et al. (2011), analisando solos no Paraná e São Paulo, que mostram que solos com cultivos sucessivos podem apresentar perdas estimadas em 242 e 212 milhões de dólares, respectivamente, em decorrência da erosão.

 

Figura 1 – Área com erosão hídrica do solo

Por outro lado, pesquisas tem demonstrado que a utilização de práticas de manejo adequadas, como as conservacionistas, contribui para a redução da erosão, principalmente a hídrica, que causa mais prejuízos (Carvalho, 2001; Cogo et al., 2003). Esses dados mostram a importância de debates e discussões para fomentar que é necessária a realização de práticas de manejo que contribuam para um desenvolvimento mais sustentável a longo prazo, mantendo e garantindo a manutenção da aptidão produtiva do solo, assim como das culturas (anuais e perenes) e pastagens.


Manejo do solo e sua importância 

Manejo do solo são práticas antrópicas adotadas que visam à produtividade vegetal e/ou animal. Sendo assim, essas práticas são capazes de acelerar ou reduzir os processos de degradação do solo, visto que depende de quais práticas serão adotadas e de como serão realizadas (Castro et al., 2006; Zonta et al., 2012). Por isso a necessidade de entendimento e compreensão da realização do correto manejo do solo.

Existem inúmeras práticas de manejo conservacionistas, tais como:

  1. Controle de queimadas, adubação verde e orgânica (caráter edáfico),
  2. Reflorestamento, plantas de cobertura, rotação de cultura (caráter vegetativo),
  3. Os de preparo do solo (reduzido, mínimo e plantio direto).

Nesse material, daremos ênfase apenas às práticas de preparo do solo, pois, geralmente, são mais intensivas no agronegócio. Além disso, o preparo do solo é considerado uma das práticas de manejo que exerce maior influência nos atributos indicadores da qualidade do solo, visto que esse manejo atua diretamente na estrutura do solo (Hamza e Anderson, 2005) e, por isso, merecem atenção. 

Práticas de preparo do solo

Durante muito tempo, o manejo convencional foi dominante nas áreas produtivas do Brasil. Esse manejo do solo consiste, basicamente, em arações e gradagens, podendo ou não incorporar resíduos. No entanto, esse tipo de manejo pode levar a exaustão do solo devido ao excesso de maquinário e revolvimento contínuo do solo, além da fertilização em larga escala. Essas ações geram perdas nas características físicas, químicas e biológicas do solo, devido ao processo de compactação, redução da ciclagem de nutrientes e comprometimento da atividade da fauna do solo, respectivamente (Lal, 2014).

Sendo assim, com o passar dos anos, os estudos e pesquisas tem demonstrado que a adoção de manejos como o preparo reduzido, mínimo e, mais atualmente, o plantio direto, são formas mais conscientes, que contribuem para a manutenção das características do solo, conservando a sua qualidade, e, consequentemente, contribuindo para a manutenção de altas produtividades.

Preparo reduzido

Esse tipo de preparo tem como objetivo reduzir a quantidade de operações agrícolas em relação ao preparo convencional. No entanto, nesse tipo de preparo ainda é realizada uma aração ou gradagem, onde os resíduos vegetais presentes no solo são semi-incorporados. Esse tipo de prática contribui parcialmente para o controle das plantas daninhas.

Embora menos prejudicial ao solo que o preparo convencional, a utilização da grade ou arado promove a quebra das crostas superficiais e dos agregados do solo, o que gera perda de matéria orgânica, além de gerar problemas com porosidade e infiltração de água e raízes, por exemplo. Apesar de permanecer uma quantidade de resíduos no solo, essa protege apenas parcialmente o solo, sendo passivo de danos por erosão hídrica (chuva ou irrigação) e eólica.

Preparo mínimo (ou cultivo mínimo)

Esse tipo de preparo é bem similar ao preparo reduzido, com uma diferença: a intensidade das operações. Geralmente, utiliza-se apenas uma gradagem leve ou apenas utiliza escarificadores. Outro ponto nesse preparo: a gradagem pode ser realizada apenas na linha que será realizada a semeadura, ficando a entrelinha sem revolvimento. Esse preparo do solo foi o precursor do sistema de plantio direto.

Plantio direto

Consiste em semear ou plantar diretamente sobre a palhada (Figura 2) da cultura antecessora, sem realizar nenhum tipo de preparo físico do solo, como aração e gradagem. Como essa prática mantem quase todo o resíduo da cultura anterior em superfície, contribui para a diminuição do processo de degradação do solo por perdas pela erosão (Amaral et al., 2008). Nessa prática de manejo, há mobilização do solo de forma mínima nas linhas ou covas, de forma que seja apenas suficiente para garantir uma semeadura adequada.

Figura 2 – Plantio direto na cultura da soja.

Esse tipo de manejo do solo apresenta inúmeras vantagens, como: redução da erosão, conservação da umidade do solo, incremento da atividade da fauna do solo e melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo.

Diante do exposto, podemos concluir que o tipo de manejo conservacionista do solo tem como principal objetivo promover altas taxas de produtividade nas terras agricultáveis a partir de um sistema de exploração sustentável e racional, que seja capaz de assegurar a manutenção da capacidade e aptidão produtiva dos solos.

Sendo assim, manejos mais voltados para o uso de maquinário tendem a ter resultados de altas produções a curto prazo, mas com perdas consideráveis para o solo ao longo prazo. Sabendo que o manejo do solo é a chave para sucesso da produtividade e manutenção da qualidade do solo, faça a escolha da chave a ser utilizada com sabedoria.

 


REFERÊNCIAS CONSULTADAS

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BRONICK, C.J., LAL, R. Soil structure management: a review. Geoderma, 124: 3-22, 2005.

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CARVALHO, F. C. Estado da arte, do conhecimento e da prática dos sistemas agroflorestais pecuários na região semiárida do nordeste brasileiro. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 43., 2006, João Pessoa. Anais dos Simpósios. João Pessoa: Sociedade Brasileira de Zootecnia: UFPB, 424-441, 2006.

CASTRO, L, COGO, N.P., VOLK, L.B.S. Alterações na rugosidade superficial do solo pelo preparo e pela chuva e sua relação com erosão hídrica. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v.30, p.339-352, 2006.

COGO, N. P.; LEVIEN, R.; SCHWARZ, R. A. Perdas de solo e água por erosão hídrica influenciadas por métodos de preparo, classes de declive e níveis de

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