Manejo da adubação nitrogenada em trigo Publicado em:

A recomendação de adubação nitrogenada para suprir a demanda das culturas é baseada na análise de solo, sobretudo no teor de matéria orgânica e da cultura antecessora (CQFS-SC/RS). Dessa forma, é fundamental utilizar boas práticas de manejo da nutrição, com o uso racional dos insumos agrícolas, principalmente daqueles que possuem riscos ambientais, tais como o nitrogênio (N). O uso eficiente do nitrogênio, além de aumentar produtividade e a qualidade dos grãos colhidos, também reduz os custos de produção e os impactos sobre o sistema produtivo.

Na cultura do trigo, o manejo da adubação nitrogenada é ainda mais importante e desafiador, pois doses muito baixas de N podem reduzir severamente o rendimento de grãos, enquanto que doses muito elevadas podem causar o acamamento das plantas e contaminação do lençol freático.

Neste material você vai entender um pouco mais sobre:

  • Funções do nitrogênio nas plantas;
  • Absorção e época de aplicação;
  • Cuidado com as perdas do nitrogênio;
  • Sintomas de deficiência.

O nitrogênio é um dos nutrientes mais requeridos pelas gramíneas e faz parte da constituição de aminoácidos, ácidos nucléicos e da molécula da clorofila. Desta forma, as principais reações bioquímicas que ocorrem nas plantas são altamente dependentes desse elemento, sobretudo a fotossíntese. Características fisiológicas e morfológicas das plantas, tais como o porte, tamanho das folhas, surgimento e desenvolvimento de perfilhos são constantemente relacionadas à disponibilidade de nitrogênio no solo.

O nitrogênio faz parte da fração proteica do cereal, portanto é essencial no que se refere à qualidade tecnológica dos grãos de trigo. Nesta cultura, as proteínas de armazenamento formam a malha do glúten, responsável pela elasticidade. Além disso, o nitrogênio tem influência direta nos componentes de rendimento da cultura (número de espigas, tamanho das espigas, massa de grãos), principalmente aquele absorvido antes do emborrachamento/antese. O nutriente absorvido após esse período tem pouco efeito direto na quantidade produzida, mas tem impacto na concentração de proteínas e qualidade dos grãos de trigo.

Absorção e época de aplicação

A ureia é o fertilizante nitrogenado mais utilizado, sendo um adubo mineral sintetizado industrialmente, a partir da combinação de amônia (NH3) líquida com gás carbônico. A ureia encontrada no Brasil apresenta em sua composição 44% a 46% de N. As plantas não absorvem a ureia diretamente, esta deve ser transformada em NH4+ (amônio) ou NO3- (nitrato), que são as formas preferencialmente absorvidas. Dessa maneira, a medida que o produtor aplicada a ureia no solo, ela é rapidamente hidrolisada pela ação da urease, enzima liberada por microrganismos, formando NH4+. O NH4+ formado poderá ser absorvido pelas plantas, imobilizado por microrganismos, convertido à nitrito (NO2-) e na sequência em NO3- por meio da nitrificação.

O nitrogênio é absorvido do solo via fluxo de massa e varia de acordo com o estádio fenológico da cultura (Figura 1). A absorção de N é lenta durante a fase de emergência até o início do perfilhamento (afilhamento). A demanda de N aumenta rapidamente e gradativamente, no período compreendido entre o final do perfilhamento/alongamento do colmo e emborrachamento/antese. A partir dessa fase a absorção de N diminui progressivamente até o enchimento de grãos. No florescimento a cultura já absorveu 95% do N total requerido durante todo o ciclo.

Figura 1. Curva de demanda de nitrogênio de acordo com os estádios fenológicos. Fonte: Adaptado de Brown et al. (2005)

Um dos grandes desafios para a adubação nitrogenada no trigo é sincronizar a demanda de N pela planta e a disponibilidade deste elemento no solo. Com base nisso, a adubação pode ser parcelada com o objetivo de aumentar a eficiência de absorção (Figura 2), seguindo a proporção:

  • 1/3 na linha de semeadura
  • 1/3 no perfilhamento
  • 1/3 no início do alongamento
Figura 2. Manejo de nitrogênio e a fenologia da cultura do trigo. Fonte: Adaptado de Pires et al. (2011).

A dose de nitrogênio é estabelecida de acordo com o teor de matéria orgânica presente no solo e da cultura antecessora.

Cuidado com as perdas do nitrogênio


Como mencionado, anteriormente, o NH4+ formado a partir da aplicação da ureia pode ser absorvido pelas plantas, imobilizado por microrganismos, convertido à nitrito (NO2-) e na sequência em nitrato (NO3-) por meio da nitrificação. A maior parte do nitrogênio disponível nos solos se encontra na forma de nitrato, o qual está constantemente sujeito a perdas por lixiviação, em situações de chuvas excessivas. Além disso, o NH4+ pode sofrer uma rápida transformação para NH3 (amônia). NH3 é um gás, que se perde para a atmosfera, através do processo de volatilização (Figura 3). Lara Cabezas et al. (1997) afirmam que até 78% do N aplicado na forma de uréia na superfície do solo pode ser perdido para o ar por volatilização.

Figura 3. Processos de perda de nitrogênio. Fonte: Vieira et al. (2017)

Como alternativa para reduzir as perdas de N por volatilização e/ou lixiviação, podem ser utilizadas fontes de N orgânico ou fertilizantes nitrogenados revestidos, os quais liberam o N de forma gradual para o solo. Além disso, a absorção pelas plantas pode ser beneficiada por estas fontes, pois o nutriente vai sendo liberado lentamente e está constantemente disponível no solo para absorção.

Sintomas de deficiência

A deficiência de nitrogênio nas plantas de trigo pode ser visualizada principalmente pelo amarelecimento uniforme das folhas mais velhas, as quais, posteriormente, ficam necrosadas (Figura 4). Esse comportamento é explicado pela elevada mobilidade no N nas folhas, portanto, a translocação deste na planta continua, mesmo após cessar o suprimento via solo.

A falta desse elemento na planta também pode ocasionar redução do crescimento, do vigor e do número de perfilhos, o que pode levar à queda precoce de espigas e, consequentemente, causar prejuízos à produtividade.

Figura 4. Sintomas de deficiência de nitrogênio em trigo.

Referências bibliográficas

BROWN, B.; WESTCOTT, M.; CRISTENSEN, N.; PAN, B.; STARK, J. Nitrogen management ford hard wheat protein enhancement. Pacific Northwest Etension Publication, PNW578, 2005.

CQFS - Comissão de Química e Fertilidade do Solo (2016). Manual de calagem e adubação para os Estados de Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Viçosa, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 376p.

LARA CABEZAS, W.A.R.; KORNDÖRFER, G.H.; MOTTA, S.A. Volatilização de N-NH3 na cultura de milho: II. Avaliação de fontes sólidas e fluidas em sistema de plantio direto e convencional. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.21, p.489-496, 1997.

PIRES, J. L. F. et al. Integração de práticas de manejo no sistema de produção de trigo. In: PIRES, J.L.F; VARGAS, L.; CUNHA, G.R da. Trigo no Brasil: bases para produção competitiva e sustentável. Passo Fundo, RS: Embrapa Trigo. p.77-114, 2011.

Vieira, R. F. (2017). Ciclo do nitrogênio em sistemas agrícolas. Embrapa Meio Ambiente-Livro científico (ALICE).

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