Aprenda a interpretar um laudo de solo em três passos

Publicado em: 15/02/2022
Compartilhe:

Você sabia que a cada nova safra é imprescindível planejar as coletas de solo e ter as análises de solo em mãos? O diagnóstico da fertilidade do solo dará uma ideia do que fazer para alcançar altas produtividades. O solo é um dos pilares do sucesso da lavoura, por isso devemos enviar as amostras do solo ao laboratório e ver como andam os níveis dos nutrientes.
Na Parte 1, vamos aprender o passo a passo para a interpretação do laudo de solo e quais os níveis ideais dos macronutrientes.

Neste conteúdo, você vai aprender sobre:

  • Colocar ou não doses elevadas;
  • Níveis críticos dos principais elementos;
  • Construção ou Manutenção?
  • Saturação por bases para altas produtividades.

1° Passo: textura do solo e CTC efetiva

O primeiro passo para interpretar um laudo é observar a textura do solo e a CTC efetiva. Geralmente, na análise básica, é encontrada a % de argila e a classe em que ela se encontra (Tabela 1), bem como os valores de CTC efetiva. Cruzando esses dados com a análise física do solo é possível definir em qual categoria o solo enquadra-se: argiloso, arenoso ou de textura média.

Sabe-se que o solo é composto por argilominerais e matéria orgânica. Os argilominerais estão dispostos na forma de tetraedros e octaedros (Figura 1). Essas estruturas abrigam em sua superfície cargas negativas que retém os cátions importantes que estão na solução do solo. Quanto maior o número de cargas positivas aderidas aos argilominerais, maior será a capacidade de troca de cátions (CTC). Por isso, analisar a CTC efetiva do solo é importante para entender até que ponto o solo irá suportar reter nutrientes.

Solos arenosos não retêm muitos nutrientes, por isso se deve parcelar as adubações ao longo do desenvolvimento da cultura. Doses elevadas de adubo aplicadas em solos arenosos tendem a se perder por lixiviação. Solos argilosos e de textura média possuem CTC mais altas e por isso têm maior capacidade de retenção de nutrientes, o que permite aplicar maiores quantidades de adubo.

Tabela 1. Classe de solo em função dos teores de argila

classe-de-solo-em-funcao-dos-teores-de-argila
Fonte: Manual de calagem e adubação para os estados do RS e SC (2016)

 

Figura 1. Lâminas tetraedrais e octraedrais constituindo

as camadas de argilominerais do tipo 1:1 e tipo 2:1.

laminas-tetraedrais-e-octraedrais-constituindo-as-camadas-de-argilominerais-do-tipo-1-:-1-e-tipo-2-:-1
Fonte: Blog Mineralogia e Química do Solo (2014)

2° Passo: Saturação por bases e Saturação por Alumínio

A saturação por bases (V%) é um excelente indicativo geral da fertilidade do solo. Ela pode ser expressa pela fórmula:

 

 

Essa fórmula representa o quanto dos cátions (Ca²++Mg²++K+) estão contidos na CTC potencial do solo. Quanto mais nutrientes contidos no solo, maior será a saturação por bases. Geralmente, as análises de solo apresentam uma saturação na faixa de 30 a 50%, o que permite melhorar a qualidade química do solo. Se você busca por produtividade acima de 70 sc/ha de soja, não espere encontrar menos de 80% de V% em sua análise. Portanto, busque o valor de V% de acordo com seu propósito:

 

 

No primeiro passo do conteúdo, falamos sobre CTC efetiva, e aqui falamos da CTC potencial. Existe uma clara diferença entre as duas: a CTC potencial geralmente é maior que a CTC efetiva, pois leva em consideração, além dos cátions Ca²++Mg²++K+ e Al+³, também os íons H+ adsorvidos aos coloides do solo.

CTC potencial: Ca2++Mg2++K++ H+ +Al+3
CTC efetiva: Ca2++Mg2++K++ Al+3

A saturação por Alumínio (m%) é um indicativo de quanto da sua CTC efetiva está preenchida com esse elemento tóxico às plantas. O interessante é ter esse valor zerado no laudo, pois se sabe que o crescimento das raízes é prejudicado quando há presença desse elemento. Além disso, sobrará mais espaço dentro da CTC para a retenção dos cátions benéficos. 

 

 

3° Passo: níveis de P, K, Ca e Mg

O terceiro passo é analisar os níveis críticos de P, K, Ca e Mg (Tabela 2), adotando a melhor estratégia de adubação. Existem duas estratégias que são recomendadas: a construção e a manutenção. Na construção, você deve adubar de acordo com a necessidade do solo, mais a demanda da cultura, que é estimada pela exportação dos nutrientes para a produção de grãos. A exportação do nutriente nada mais é que a quantidade do nutriente contido na planta, que será retirado do sistema de produção pelo advento da colheita. Enquanto na manutenção a adubação somente será calculada de acordo com a necessidade da cultura.

O K e o P, quando estão abaixo do nível crítico, devem ser construídos no solo. Isso significa que o solo demanda uma certa quantidade desses elementos e eles precisam ser aplicados para “matar a fome” do solo. Por isso, recomenda-se elevar a quantidade contida no solo até o nível crítico. Assim, construção e manutenção podem ser descritas como:

 

 

Tabela 2. Níveis críticos de P, K, Ca e Mg

niveis-criticos-de-P-K-Ca-e-Mg
Fonte: Autora (2021)

Existem muitos autores que discutem sobre os teores de exportação e extração (kg/tonelada de grão) de cada elemento. Vamos adotar um compilado de dados de vários autores:

Tabela 3. Extração e Exportação de nutrientes na Soja

Fonte: Bender et al. (2013); Bender et al. (2015); Embrapa (2016); Fundação MT (2016); Pauletti (2014).

Atente no laudo de solo para o tipo de P que foi analisado. Se P Mehlich-1, o nível crítico irá variar de acordo com o teor de argila contido no solo. Se P resina, temos como nível crítico o valor de 30 mg/dm³

Tabela 4. Níveis críticos de P Mehlich-1

niveis-criticos-de-P-mehlich-1
Fonte: Reagro (2021).

Qual a importância de interpretar um laudo de solo?

Para interpretar um laudo de forma rápida, você aprendeu que deve compreender se o solo é argiloso, de textura média ou arenoso. Após esse diagnóstico, deve observar os valores da saturação por bases e saturação por alumínio, bem como os níveis dos principais nutrientes. Com esse passo a passo, é possível ter uma rápida fotografia das condições químicas do solo e preparar-se para tomar as decisões sobre adubação e calagem.

Dicas importantes!!!

  • Muitas vezes o produtor toma a decisão de não aplicar K e P para manutenção, preferindo trabalhar com os níveis que estão no solo. Saiba que nesse caso ele pode estar perdendo potencial de produtividade, pois não está levando em consideração o que a planta está tirando do sistema. 
  • O que temos que ter em mente é que, se você quer trabalhar com sistemas de alta produtividade, a correção do solo não deve ser negligenciada. 
  • Não adianta adubar com K, P e N sem antes corrigir a acidez do solo. Primeiro precisamos ajustar o pH e neutralizar o Al3+ dos solos, para depois se preocupar com a adubação.


Autor(a)

Dr. Heloisa Alves Pinto de Oliveira

MATERIAIS MAIS ACESSADOS:
VOCÊ PODE GOSTAR: