Épocas e densidades de semeadura do trigo duplo propósito

Publicado em: 18/04/2022
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O trigo, cereal pertencente à família Poaceae, é utilizado como matéria-prima para a produção de pães, massas e biscoitos. Esse cereal expressa grande variabilidade genética, porém, 90% do trigo cultivado no mundo é representado pelas espécies Triticum aestivum, Triticum compactum e Triticum durum, sendo a primeira espécie responsável por evidenciar a maior qualidade de seus grãos. A produção mundial aproxima-se de 750 milhões de toneladas, e a produção brasileira apresenta-se superior a seis milhões de toneladas de grãos anuais. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o Rio Grande do Sul e o Paraná são os Estados que mais contribuem para a produção brasileira do trigo.

No atual cenário, a Região Sul do país evidencia baixa disponibilidade de forragem de alto valor nutritivo e frequentemente acarreta em escassez de alimentos aos animais, principalmente nos períodos de baixa temperatura do ar (outono/inverno). Diante disso, visando a integração dos sistemas produtivos com intuito de incrementar o valor econômico, a sustentabilidade e minimizar o vazio forrageiro, a Embrapa Trigo desenvolveu genótipos de trigo com duplo propósito, que possibilitam produzir forragem de alta qualidade em seu período vegetativo e ainda produzir grãos.

Buscam-se, em genótipos de trigo de duplo propósito:

  • elevada produção de massa verde,

  • tolerância ao pastejo e pisoteio,

  • satisfatória produtividade de grãos ou sementes,

  • rápido estabelecimento,

  • elevada capacidade de afilhamento e hábito de crescimento ereto,

  • alta competitividade na interação com plantas daninhas,

  • longos períodos vegetativos, possibilitando o maior número de cortes e

  • curtos períodos reprodutivos.


Anterior a sua semeadura, é necessário compreender a dinâmica de crescimento e desenvolvimento, bem como os efeitos do ambiente de cultivo sobre as características genéticas do trigo duplo propósito. Deve-se implantar a cultura em solos com as condições físicas, químicas e biológicas devidamente corrigidas. Para que as correções e fertilizações sejam apropriadas, são necessárias amostragem e análise dos atributos físicos e químicos do solo e o contraste dos resultados obtidos com as indicações do Manual de Adubação e Calagem para os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Para culturas com duplo propósito, é requerido maior quantidade de nitrogênio (20 kg de N ha-1 na semeadura com o restante parcelado no afilhamento e após cada pastejo ou desfolha). O parcelamento do nitrogênio após cada pastejo ou desfolha auxilia na rápida reestruturação ou rebrote da área foliar das plantas e no incremento da fração proteica.

O manejo de corte ou pastejo das plantas caracteriza-se como um aspecto muito importante em trigo de duplo propósito, pois deve-se considerar a altura da planta, biomassa disponível, tempo ou intervalo entre corte, índice de área foliar e a qualidade bromatológica da forragem. A altura da planta caracteriza-se como ideal para o primeiro pastejo quando atinge de 25 a 35 centímetros, deixando um mínimo de sete centímetros para proporcionar o rebrote e proteger o meristema apical. Para essas alturas de corte, é possível obter 1000 a 1500 quilos por hectare de massa seca, por corte ou pastejo realizado. Diante do período cronológico para a realização dos cortes, geralmente o primeiro corte ou pastejo ocorre 60 dias após a emergência das plântulas e pode variar de 35 a 70 dias devido às características do genótipo, ambiente de cultivo ou interação genótipos X ambientes de cultivo. 

ESTRATÉGIAS PARA O CULTIVO

A produtividade de sementes de trigo de duplo propósito é decorrente da ação conjunta de vários caracteres de interesse agronômico, os quais são determinados por fatores genéticos, ambientais e da interação genótipos X ambientes. Desta forma, os efeitos do ambiente de cultivo apresentam-se como os mais pronunciáveis para esta cultura, pois influenciam diretamente na produtividade de grãos e sementes, a duração do período vegetativo e reprodutivo, a estatura das plantas, os componentes da produtividade e a qualidade bromatológica da forragem.

As estratégias abordadas para o cultivo do trigo devem ser amparadas pela escolha eficiente do genótipo, da época de semeadura, uso de sementes de alta qualidade, tratos culturais adequados, ambientes de cultivo indicados para genótipos específicos, temperatura do ar e radiação solar incidente satisfatória para o crescimento e desenvolvimento do trigo duplo propósito. Devem-se minimizar os efeitos negativos de estresses abióticos, como geadas e déficits hídricos, bem como os bióticos, como a presença de plantas daninhas, insetos-praga e doenças.

ÉPOCAS DE SEMEADURA DO TRIGO PARA O RIO GRANDE DO SUL

Dentre as estratégias de manejo disponíveis, a época de semeadura destaca-se por proporcionar o escape aos períodos críticos durante o crescimento e desenvolvimento do trigo de duplo propósito em épocas de baixa disponibilidade hídrica e temperaturas inadequadas.

Devido à carência de informação referente aos genótipos de trigo de duplo propósito, é necessário contrastar os efeitos da época de semeadura  em genótipos de trigo convencional, para então compreender os efeitos dessa fonte de variação nos caracteres de interesse agronômico, tais como altura da planta, massa da espiga, comprimento da espiga, número de sementes por espiga, altura de inserção da espiga, massa de sementes por espiga, peso hectolitro, massa de mil sementes e rendimento de sementes por hectare.

A altura da planta e de inserção da espiga apresentam-se como os caracteres menos influenciados pelas épocas de semeadura. Apenas as diferenças genéticas entre os genótipos de trigo são pronunciáveis. Os genótipos de trigo convencionais semeados na primeira quinzena de maio e primeira quinzena de junho revelam que o comprimento da espiga é influenciado diretamente em semeaduras antecipadas, na região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Por outro lado, evidencia que o incremento do comprimento da espiga em semeaduras tardias (primeira quinzena de junho) é exclusivo a determinados genótipos. Espigas com maiores dimensões tendem a incrementar o número de espiguetas e sementes por planta, consequentemente podem influenciar positivamente a produtividade por unidade de área. As espigas são maiores devido à alteração da dinâmica de translocação e particionamento de assimilados nos diferentes órgãos da planta.

Destaca-se a importância das práticas de manejo na expressão dos componentes da produtividade de sementes de trigo, pois identifica-se que a massa da espiga e a massa de mil sementes são influenciadas diretamente pela época de semeadura (precoce ou tardia). A massa da espiga é potencializada em semeaduras realizadas precocemente (mês de maio), entretanto, há genótipos que respondem desvantajosamente a semeaduras tardias (mês de junho).

DENSIDADES DE SEMEADURA DO TRIGO DUPLO PROPÓSITO PARA O RIO GRANDE DO SUL

A densidade de semeadura é identificada como uma das práticas de manejo de maior influência para o afilhamento e produtividade de forragens, grãos e/ou sementes do trigo com duplo propósito. O incremento do afilhamento resulta no aumento substancial da magnitude de estruturas reprodutivas (espigas) por unidade de área e, consequentemente, as proporções de massa verde, seca e sementes serão maiores. Na implantação da pastagem e/ou lavoura de trigo de duplo propósito, há uma tendência de o produtor realizar a semeadura baseada em conhecimentos empíricos, ponderados por cultivos antecessores com o trigo convencional.

No entanto, certas modificações são necessárias para que seja realizada uma implantação adequada. Tanto para a produção de forragem como grãos ou sementes, busca-se definir uma população de plantas que reflita no incremento de produtividade e sustentabilidade da pastagem e das plantas ao longo do ciclo de produção. É necessário compreender o nível tecnológico do produtor, as características do ambiente de cultivo e do genótipo utilizado, bem como dos métodos de implantação, minimizando as perdas de sementes, dos gastos dispendiosos com insumos agrícolas e maximizando o crescimento e desenvolvimento das plantas forrageiras.

De maneira geral, a Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale (CBPTT) recomenda a utilização de uma densidade de semeadura intermediária entre 350 a 400 sementes viáveis por metro quadrado, referente aos genótipos de trigo convencionais.

Para o cultivo de genótipos de trigo com duplo propósito, indica-se a antecipação da semeadura em mais de 15 dias, referentes à época indicada aos genótipos convencionais, além de que a densidade de semeadura deve ser intermediária de 250 a 350 sementes viáveis por metro quadrado. Assim, prioriza-se a adequada dinâmica de afilhamento, produção de forragem, obtenção de afilhos férteis e produção de grãos ou sementes.

Verifica-se que os genótipos de trigo duplo propósito possuem comportamento diferenciado para cada sistema de corte, sendo necessário ponderar as técnicas de manejo através da época e densidade de semeadura, bem como da expectativa do número de cortes e produtividade a ser obtida, para que então obtenha-se uma pastagem produtiva com forragem de qualidade e lucrativa para a propriedade rural. 

REFERÊNCIAS

SILVA, J. A. G.; CARVALHO, I. R.; MAGANO, D. A. (org.) A cultura da aveia: da semente ao sabor de uma espécie multifuncional. Curitiba: CRV, 2020.

CARVALHO, I. R.; NARDINO, M.; SOUZA, V. Q. Melhoramento e cultivo da soja. Porto Alegre: Cidadela, 2017.

CARVALHO, I. R.; SZARESKI, V. J.; NARDINO, M.; VILLELA, F. A.; SOUZA, V. Q. Melhoramento e produção de sementes de culturas anuais: soja, milho, trigo e feijão. Saarbrücken, Germany: Ommi Scriptum Publishing Group, 2018.


Autores:

Ivan Ricardo Carvalho – Professor Pós-Doutor – Melhorista de Grãos da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Danieli Jacoboski Hutra – Engenheira agrônoma – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Ambientais e Sustentabilidade da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Eduarda Tamiozzo Goergen – Estudante de graduação em Medicina Veterinária da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Marlon Vinícius da Rosa Sarturi – Estudante de graduação em Agronomia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
Autor(a)

Dr. Ivan Ricardo Carvalho

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