A análise microbiológica de solo aplicada à cultura de trigo

Publicado em: 16/02/2022
Compartilhe:

Neste material você irá conhecer um pouco mais sobre:

  • A análise de solos cultivados com trigo
  • A importância da biologia do solo para o cultivo de trigo

O trigo (Triticum aestivum) é um alimento de grande valor nutricional, que se encontra presente em diversos produtos consumidos diariamente pelos brasileiros, como o pão e as massas. A região Sul concentra a maior parte dos cultivos de trigo do país, sendo responsável, em 2017, por 90% da produção nacional. Isto está em grande parte associado com características climáticas que favorecem esta cultura no Sul, especialmente em associação com a soja, visando a uma maior sustentabilidade agrícola.

Os desafios no cultivo do trigo

Apesar da significância desta cultura para os brasileiros, os produtores enfrentam uma série de desafios durante o cultivo do trigo. Alguns destes problemas estão associados com fatores abióticos que estressam as plantas. Os períodos de estiagem são exemplos de fatores abióticos que podem atrasar a cultura e provocar perdas que reduzem a produtividade. Outros problemas estão associados com pragas que ameaçam a cultura. Segundo Tormen e colaboradores (2013), as doenças nas partes aéreas do trigo estão associadas com perdas de produtividade e reduções da qualidade dos grãos. Entre as doenças de importância para a região Sul podem ser citadas a ferrugem da folha e a mancha amarela, causadas, respectivamente, pelos fungos Puccinia triticina e Drechslera tritici-repentis.

O que fazer para superar estes desafios?

Há várias estratégias que os produtores de trigo podem adotar para lidar com os problemas que ameaçam a lavoura. Uma delas envolve a avaliação da qualidade do solo, visando a garantir as melhores condições de cultivo e a maximização da produção. 

Entre os tipos de análise que podem ser utilizados para avaliação da qualidade do solo, os métodos biológicos vêm gradualmente sendo mais aplicados no Brasil. Isto se dá em função do reconhecimento de que os organismos que vivem no solo podem influenciar a produção agrícola de várias maneiras, permitindo, inclusive, o combate às pragas e a proteção dos vegetais contra diferentes formas de estresse ambiental.

Análise genética de microrganismos para a cultura do trigo
Um exemplo de aplicação da análise genética de microrganismos do solo para a cultura de trigo é a comparação de diferentes sistemas de produção. Este tipo de comparação pode auxiliar o produtor na escolha de um sistema adequado ao seu solo e às suas opções de negócio. 

Um estudo deste tipo foi realizado pela Embrapa Soja de Londrina (SOUZA et al., 2013), no qual foram comparados os cultivos tradicionais, de plantio direto, com sucessão e com rotação de culturas. Os pesquisadores puderam observar que as diferenças mais significativas foram observadas quando os cultivos convencionais e de plantio direto foram comparados. De maneira geral, há uma maior prevalência de patógenos e uma menor biomassa microbiana em solos com cultivo convencional. Porém, neste mesmo sistema de cultivo, os microrganismos detectados são mais versáteis em utilizar a matéria orgânica do solo e resistem melhor a certas formas de estresse. Por outro lado, em solos de plantio direto há uma maior frequência de certos grupos microbianos, como os rizóbios, associada a uma maior qualidade ambiental.


Outro aspecto que é pouco abordado quando se considera a qualidade do solo do ponto de vista biológico é o efeito da cultivar de trigo sobre a comunidade de microrganismos. As diferentes cultivares podem interagir com a microbiota do solo, influenciando sua composição, de maneira a favorecer o seu crescimento. 

Como mostrado por Mahoney e colaboradores (2017), apesar de esta influência ocorrer sobre grupos específicos de microrganismos, ela alterou aspectos funcionais da microbiota do solo que podem favorecer o crescimento vegetal. Como exemplo, o cultivo de algumas cultivares favoreceu a seleção de microrganismos que tornaram o solo mais supressivo contra os fungos do gênero Rhizoctonia, causador da podridão radicular. Portanto, a escolha de uma determinada cultivar pode reduzir as chances de infestações por este e outros patógenos, por favorecer o potencial natural do solo de combate a pragas. Este tipo de resposta só pode ser obtido empregando-se uma análise genética da microbiota do solo.

Análise microbiológica

Além de ser utilizada para avaliar a qualidade do solo, a fim de direcionar as práticas agrícolas adotados pelo produtor, a análise microbiológica também pode ser empregada por outros profissionais do agronegócio, que atuam especificamente com a produção de trigo. Os produtores de bioinsumos, por exemplo, podem utilizar estas ferramentas para buscar novos organismos que podem ser empregados como ativos biológicos em produtos direcionados para a solução de problemas associados com a produção de trigo. Como ilustrado por Ahlawat, Tiwari e Singh (2020), várias bactérias que vivem em associação com a rizosfera do trigo possuem a habilidade de melhorar a sobrevivência da planta em condições de estresse, como o desbalanço hídrico. A seleção e a validação do uso destes microrganismos podem ser realizadas com a análise genética de solo.

Em suma, a análise microbiológica, especialmente a análise genética de solo, oferece várias oportunidades para que as práticas associadas com a cultura de trigo sejam refinadas. Este refinamento é necessário para que níveis maiores de produtividade possam ser alcançados, um refinamento que depende de conhecimento mais aprofundado e controle sobre as práticas adotadas há anos na cultura de trigo. Neste sentido, em um contexto aplicado, a biologia do solo é menos conhecida, em comparação com a química e a física do solo. Logo, o emprego das análises microbiológicas é o que oferece mais oportunidades para os profissionais atuantes no agronegócio relacionado com a produção de trigo e de outras culturas.

Referências

AHLAWAT, O. P.; TIWARI, R.; SINGH, G. P. Metagenomics of wheat rhizosphere for abiotic stress management. Wheat and Barley Research, v. 10, n. 2, p. 64-77, 2020.
MAHONEY, A. K.; YIN, C.; HULBERT, S. H. Community structure, species variation, and potential functions of rhizosphere-associated bacteria of different winter wheat (Triticum aestivum) cultivars. Front. Plant Sci., v. 8, fev. 2017. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpls.2017.00132
SOUZA, R. C.; CANTÃO, M. E.; VASCONCELOS, A. T. R.; NOGUEIRA, M. A.; HUNGRIA, M. Soil metagenomics reveals differences under conventional and no-tillage with crop rotation or succession. Applied Soil Ecology, v. 72, p. 49- 61, 2013.
TORMEN, N. R.; LENZ, G.; MINUZZI, S. G.; UEBEL, J. D.; CEZAR, H. S.; BALARDIN, R. S. Reação de cultivares de trigo à ferrugem da folha e mancha amarela e responsividade a fungicidas. Ciência Rural, v. 43, n. 2, p. 239-246, 2013.


Autor(a)

Dr. Biome4All

MATERIAIS MAIS ACESSADOS:
VOCÊ PODE GOSTAR: