Principais espécies e danos de nematoides na cana-de-açúcar Publicado em:

Entre os problemas fitossanitários que afetam a produtividade da cana-de-açúcar, doenças causadas pelos nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.) e pelos nematoides-das-lesões radiculares (Pratylenchus spp.), têm sido responsáveis por perdas em produtividade nas diferentes regiões produtoras do Brasil. Esses patógenos parasitam o sistema radicular das plantas atacadas deixando-as debilitadas refletindo em menor capacidade de absorção de água e nutrientes, e consequentemente, na redução da produtividade da cultura.


Dentre as espécies do nematoide-das-galhas relatadas em áreas produtoras de cana, Meloidogyne javanica e Meloidogyne incognita são consideradas as mais frequentes em canaviais brasileiros, onde elevados índices populacionais podem afetar a produtividade. Já para o nematoides-das-lesões Pratylenchus brachyurus e Pratylenchus zeae são presentes em quase a totalidade dos canaviais do pais. Também é relata outras espécies do nematoide-das-galhas na cultura como Meloidogyne hispanica, Meloidogyne ethiopica, Meloidogyne luci, Meloidogyne hapla, Meloidogyne arenaria, Meloidogyne morocciensis e Meloidogyne enterolobii, mas em menor frequência e localizado a regiões especificas do Brasil.

A ocorrência conjunta do nematoide-das-galhas e nematoide-das-lesões numa mesma área é comum em canaviais. Dependendo das condições favoráveis, uma das espécies prevalecerá sobre as outras. Como estes nematoides apresentam alta severidade e fácil disseminação, o controle desses organismos nestas condições é dificultado no campo. Cada uma destas espécies apresenta diferentes graus de infestação e severidade de danos à cultura e são responsáveis por reduzir a produtividade dos canaviais em cerca de 20%, podendo chegar até a 70%.

Em campo, os sintomas de ataque de nematoides são reboleiras de plantas menores (Figura 1) e cloróticas, com "fome de minerais", murchas nas horas mais quentes do dia e menos produtivas, entre outras de porte e coloração aparentemente normais. Esses sintomas na parte aérea são reflexos do ataque dos nematoides às raízes, de onde esses parasitas extraem nutrientes e injetam toxinas, resultando em deformações, como as galhas provocadas por Meloidogyne (Figura 2), e extensas áreas necrosadas, quando os nematoides presentes são Pratylenchus (Figura 3). Em consequência, as raízes se tornam pouco desenvolvidas, pobres em radicelas, deficientes e impossibilitadas de desempenhar normalmente suas funções.

Figura 1 – Redução do desenvolvimento da cana-de-açúcar infectada com Meloidogyne.

Figura 2 – Raízes de cana-de-açúcar atacadas por nematoides do gênero Pratylenchus.
Figura 3 - Raízes de cana-de-açúcar infestadas por nematoides do gênero Meloidogyne.

Ciclo de vida e condições favoráveis

Durante o ciclo de vida do nematoide-das-galhas, os mesmos passam por quatro estádios juvenis antes de se tornarem adultos. A primeira ecdise ou troca de cutícula ocorre no interior do ovo. Em seguida o juvenil de segundo estádio (J2) eclode do ovo e vai para o solo ou penetra diretamente em uma raiz.

Os J2 são vermiformes e medem cerca de 0,2 mm a 0,4 mm para as diferentes espécies de Meloidogyne. Apenas o J2 é a forma infectante do nematoide-das-galhas que se movimenta por entre as partículas de solo e se locomovem ao encontro as raízes das plantas de cana-de-açúcar. O juvenil penetra na raíz geralmente pela ponta (coifa) em crescimento e migra entre as células até estabelecer um local de alimentação nas células. Neste momento torna-se um endoparasito sedentário. Secreções produzidas pelas glândulas esofagianas do nematoide estimulam a formação de várias células gigantes nas raízes parasitadas, que fornecem nutrientes para os nematoides. Os nematoides aumentam rapidamente de tamanho e passam pelas ecdises transformando-se em 3º e 4º estádio juvenil e finalmente em adultos. Raramente machos são encontrados nas espécies que parasitam a cana-de-açúcar, quando presente, os mesmos migram para fora da raiz e não se alimentam.

Uma fêmea produz durante o ciclo centenas de ovos que podem chegar a mais de 2000. Estes são depositados em uma massa de ovos, geralmente dentro das raízes da cana-de-açúcar.

O ciclo de Meloidogyne de ovo a ovo leva cerca de três a quatro semanas no verão e no inverno este tempo pode ser estendido até sete semanas. Assim a duração do ciclo de vida é fortemente dependente da temperatura e aumenta conforme a temperatura do solo diminui.

A sobrevivência do nematoide-das-galhas e completar o ciclo de vida dependem do crescimento bem-sucedido da planta hospedeira e das condições ambientais. Os machos participam menos no ciclo de vida em relação às fêmeas. O desenvolvimento de machos é aparentemente irrelevante, uma vez que a maioria das espécies se reproduz por partenogênese, sem haver a necessidade de copulação.

O ciclo de vida das espécies de Pratylenchus é simples e rápido, normalmente ocorrem várias gerações em uma única safra da cultura da cana-de-açúcar. Altas populações podem ser detectadas nas raízes infectadas, logo no início do ciclo da cultura. A fêmea deposita os ovos no interior das raízes ou no solo próximo à superfície das mesmas (postura isolada, sem formação de massa de ovos). Em média, cada fêmea produz 80 a 150 ovos durante toda a vida. O período embrionário varia de 6 a 8 dias, a uma temperatura de 28ºC a 30ºC. A primeira ecdise ocorre no interior do ovo e as outras três ocorrem fora dele.

Todas as fases de vida do Pratylenchus são infectivas, ou seja, são capazes de parasitar o tecido das plantas de cana-de-açúcar. O tempo para completar o ciclo de vida é de 3 a 4 semanas (em média), porém, dependendo principalmente da temperatura, da umidade, do genótipo da cana-de-açúcar, pode variar. Os nematoides-das-lesões permanecem migradores durante todo o ciclo de vida e movimentam-se ativamente no solo, até atingir o sistema radicular da planta, quando então, penetram e passam a migrar no córtex radicular, podendo inclusive retornar ao solo.

Esta espécie de nematoide é altamente adaptada a condições adversas, podendo sobreviver por vários meses sem uma planta hospedeira. Estudos demonstram capacidade de sobreviver por longos períodos no solo seco, bem como a exposição a temperaturas extremas, sobrevivência por até 22 meses no solo em pousio com fragmentos de raízes, e até 7 meses na ausência destas raízes.

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