Microbioma em insetos Publicado em:

Conheça os benefícios do microbioma de insetos e como isso pode afetar o seu controle

 

Neste material você vai conhecer um pouco mais sobre:

  • O que é microbioma
  • Microbioma de insetos

Diversos fatores podem afetar o sucesso de controle de insetos-pragas. Mas, você sabia que a presença de determinados grupos de microrganismos no sistema digestório dos insetos também pode afetar o sucesso do controle?

Cada vez mais nos deparamos com estudos sobre comunidades microbianas no solo e o benefício que promovem ao sistema produtivo (Veja mais), porém, ainda estamos em um momento em que pouco se discute sobre a importância do microbioma em outros ambientes, como no caso do microbioma dos insetos. Insucessos em controle de insetos normalmente são atribuídas a falhas em tecnologia de aplicação, ao estádio de desenvolvimento do inseto, ao princípio ativo do inseticida etc. Entretanto, existe outro fator que pode ter uma importante influência no controle de insetos: o microbioma. Normalmente ignoramos ou desconhecemos o papel do microbioma dos insetos na sua capacidade de ajudar o inseto a resistir à aplicação de um determinado método de controle. Assim, é necessário compreendermos que não podemos atribuir as falhas de controle de pragas a somente um ou dois fatores. 

Mas, afinal, o que é microbioma? 

Microbioma corresponde à soma de todos os microrganismos que vivem em um determinado ambiente. Isso significa que todos os grupos de microrganismos (bactérias, fungos, protozoários e vírus) que interagem entre si e com o ambiente onde estão inseridos representam conjuntamente o microbioma (Figura 1).

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Figura 1. Microbioma de um inseto composto por bactérias, fungos, protozoários e fungos que vivem no intestino do invertebrado.

Nos insetos, o intestino é o principal ambiente que abriga o microbioma. Assim, os microrganismos que vivem no interior do inseto são denominados de endossimbiontes (endossimbionte = qualquer organismo vivo que vive no interior de outro organismo). A presença desses endossimbiontes pode ser benéfica ou maléfica aos insetos, dependendo da espécie de microrganismo presente, do estado nutricional do inseto, da interação com outros endossimbiontes, entre outros fatores ambientais. Apesar de existirem relações positivas e negativas dos endossimbiontes, aqui iremos focar somente em relações benéficas aos insetos. 
    A presença de endossimbiontes benéficos pode trazer inúmeros benefícios aos insetos hospedeiros, como, por exemplo: 

  • Nutrição adicional: o endossimbionte pode produzir moléculas essenciais ao desenvolvimento do inseto e que são escassas na sua dieta, como algumas vitaminas.
  • Proteção contra estresses abióticos: o endossimbionte pode ajudar na regulação fisiológica do corpo do inseto quando o hospedeiro for submetido a mudanças drásticas de temperatura e umidade.
  • Proteção contra estresses bióticos: o endossimbionte pode competir e inibir o desenvolvimento de outro microrganismo entomopatogênico que provoque efeitos negativos ao inseto.

Mas como o microbioma pode afetar o controle de insetos? 

Um meio é através da competição dos endossimbiontes benéficos do microbioma contra outros microrganismos entomopatogênicos. Ainda, os endossimbiontes benéficos podem inativar ou reduzir os efeitos tóxicos de inseticidas utilizados no controle de insetos.

Por exemplo, a presença do gênero de bactérias Burkholderia no intestino dos insetos pode ajudar na degradação da Fenitrotiona, um organofosforado amplamente usado para o controle de insetos (TAGO et al., 2014).  Em geral, esse gênero de bactéria pode ser encontrado associado a muitos insetos-pragas. 

É diante deste contexto que estudos que visam a compreender a comunidade microbiana estão ganhando cada vez mais a atenção dos cientistas. Atualmente, acredita-se que alguns comportamentos dos insetos que permanecem sem explicação podem estar relacionados à interação destes com os seus endossimbiontes.

A comunidade microbiana que vive em insetos é a mesma em todas as espécies?

Não. A comunidade de organismos varia de espécie para espécie e, também, dentro das populações de uma mesma espécie. Existem muitas variáveis que podem interferir na composição da comunidade de microrganismos associados aos insetos. Dentre essas variáveis podemos citar o clima, a planta em que o inseto se alimenta, assim como seu estado nutricional, o ambiente em que vivem, as relações com outros insetos e com outros indivíduos da população.  Dessa forma, estudos em determinadas condições controladas muitas vezes não podem ser comparados diretamente, pois apesar de ser a mesma espécie de inseto avaliada e um mesmo produto aplicado, a composição de microrganismos associados ao inseto pode ser muito diferente e, assim, a resposta do inseto ao produto aplicado também. 

Agora, você, técnico de campo, deve estar se questionando: preciso conhecer mais essa variável para poder planejar melhor o controle de insetos? 

Nós diríamos que a resposta seria não, mas saber que essas relações existem é muito importante. Atualmente a ciência ainda busca desenvolver novas técnicas para que possamos compreender mais profundamente a composição dos microbiomas e as relações entre os microrganismos. Talvez no futuro tenhamos que entender melhor isso, para assim sermos cada vez mais assertivos no momento da escolha de um inseticida ou de um agente de controle biológico. 

Referências

GURUNG, K.; WERTHEIM, B.; FALCAO SALLES, J. The microbiome of pest insects: it is not just bacteria. Entomologia Experimentalis et Applicata, v. 167, n. 3, p. 156-170, 2019.

TAGO, K.; OKUBO, T.; ITOH, H.; KIKUCHI, Y.; HORI, T.; SATO, Y.; NAGAYAMA, A.; HAYASHI, K.; IKEDA, S.; HAYATSU, M. Insecticide-degrading Burkholderia symbionts of the stinkbug naturally occupy various environments of sugarcane fields in a Southeast island of Japan. Microbes and environments, p. 14124, 2014.

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