A década das pragas Publicado em:

Neste material você irá encontrar pontos importantes a salientar sobre essa década das pragas como:

  1. Doenças
  2. Pragas

Doenças

A perda de eficácia de fungicidas no controle de algumas doenças, resistência de ervas daninhas a herbicidas e a redução na longevidade de eventos geneticamente modificados para insetos-praga são alguns dos problemas que tornaram o manejo fitossanitário da cultura da soja ainda mais complicado. Parcela significativa do dano causado pelas doenças deveu-se à ferrugem da soja (Figura 1). Desde a requeima da batata, na Irlanda (1842/45), nenhuma doença foi tão impactante como a ferrugem da soja em um determinado país. Ainda hoje, perdas significativas são observadas no Brasil.

Figura 1 – Ferrugem da soja

A ferrugem da soja foi um marco fundamental não somente na cultura, mas para todo o agronegócio de grãos do Brasil. Capaz de causar um dano de mais de 50%, sua severidade elevada e rapidez na dispersão do patógeno foi determinante para a revolução técnica observada (Figura 2). Para minimizar perdas mais severas, medidas legislativas foram adotadas (vazio sanitário), grupos de pesquisa incentivados e investimentos governamentais foram realizados através do Consórcio Anti-Ferrugem, além da adoção de profunda revisão nos conceitos e procedimentos em todos os segmentos da cadeia produtiva agrícola. Com isso, produtores realizaram investimentos inéditos visando o controle químico da doença.

Figura 2 – Ferrugem da soja em distintos níveis de severidade.

Melhoramos do ponto de vista tecnológico, mas perdemos em rentabilidade. Essa queda tende a agravar-se com o aumento de área, com a maior incidência de novos problemas sanitários (doenças, insetos, ervas e nematoides) e pelo cenário de transição do modelo familiar para o modelo empresarial. Além da ferrugem, mancha alvo, antracnose, mofo branco, podridão de carvão, nematoide de cisto e galha têm apresentado intensidade crescente, enquanto que mancha parda, crestamento foliar de cercospora, oídio, míldio, seca da haste da vagem, Phomopsis da semente, cancro da haste, tombamento e podridão aquosa da base da haste e podridão vermelha da raiz mantêm-se estáveis, atacando lavouras de soja em todo o país.

Este conjunto de doenças certamente não é novo, mas o produtor passou a percebê-las a partir do momento em que as cultivares modernas e menos rústicas passaram a ser mais facilmente atacadas pelo complexo de doenças, impedindo que as altas produtividades fossem atingidas, mantendo as médias de produtividade no patamar das 3 t/ha. O cenário de preços pode ter conduzido a um aumento de receita, mas a rentabilidade tem sido reduzida.

A possibilidade de patógenos secundários assumirem um papel destacado é uma realidade. Dentre esses, os problemas radiculares são a maior ameaça (Figura 3a e 3b). Devido à intensidade do cultivo de soja, práticas elementares e fundamentais como rotação de culturas, pousio e correção do solo em profundidade são impensadas. A escala de produção, aliada à necessidade de um momento ótimo de semeadura e à necessidade de otimização da terra, tornam o sistema agrícola extremamente intenso, pouco biológico e muito operacional.

Figura 3 – Podridão de carvão (Macrophomina phaseolina), doença radicular da soja

As perspectivas fitossanitárias para os próximos 10 anos repousam na relação entre aumento de produtividade, ampliação da escala produtiva e a perda de rusticidade varietal. E qual o ponto de equilíbrio? Certamente da fragilidade varietal surgirão novos problemas. Soluções químicas apresentam restrições, tanto ambientais como operacionais. Aplicações semanais serão viáveis? Soluções genéticas, visando resistência, poderão ser obtidas, mas para patógenos pouco mutáveis. Não é o caso de ferrugem, por exemplo. Não podemos nos esquecer que estamos em um país tropical, cujas condições favoráveis às doenças e às pragas podem ser observadas praticamente o ano inteiro.

Pragas

Além das doenças, muitos insetos-praga têm surgido com grande voracidade no cenário atual. Insetos que no passado foram considerados pragas secundárias hoje tem um patamar de destaque, como as lagartas-falsa-medideira, desfolhando soja e, mais recentemente, lagartas do gênero Spodoptera, atacando vagens de soja. Além disso, muitos insetos têm ampliado sua faixa de atuação nos estádios da cultura tradicional de ocorrência e para outras culturas que não eram tradicionais. Como exemplo, os percevejos da soja, que sempre foram motivos de preocupação para sojicultores na fase reprodutiva dessa cultura, hoje têm iniciado seus ataques desde o início do cultivo de soja. Também as espécies de percevejos tradicionais da soja têm atingido populações cada vez maiores em hospedeiros que anteriormente não tinham tradição como inseto-praga (Figura 4).

Figura 4 – Percevejo marrom da soja (Euschistus heros)

A mosca-branca, tradicional causadora de dano na cultura do feijão pela transmissão de um vírus, atualmente passou a um estágio de importante praga da soja, com necessidade de frequentes pulverizações de inseticidas para esse alvo, algo impensável há poucos anos atrás. Além dos insetos-praga tradicionais da soja no Brasil, a introdução de forma intencional ou não da lagarta Helicoverpa armigera tem sido motivo de pavor entre agricultores e técnicos, sendo assunto de constante destaque na mídia (Figura 5a e 5b). Esse inseto-praga pode ser considerado um dos mais preocupantes do mundo pela capacidade de dano, pelo número de hospedeiros, alta capacidade reprodutiva e também pela rápida evolução de resistência às táticas de controle com inseticidas. Diante disso, teremos que aprender a conviver com mais esse problema daqui em diante.

Figura 5 – Helicoverpa armigera

A grande expansão das áreas cultivadas, associadas ao intenso sistema de cultivo, tem potencializado o estabelecimento e crescimento de populações de insetos-praga com hábitos polífagos. A disponibilização de alimento em grande quantidade e de forma contínua tem possibilitado que as populações desses insetos mantenham-se sempre em alta, sem precisar deslocar-se por grandes distâncias à procura de hospedeiros. Os períodos secos do cerrado brasileiro, que no passado dificultavam a manutenção de altas populações de insetos pela ausência de plantas em boas condições fisiológicas para alimentação, hoje já não tem um impacto tão expressivo. A ampliação das áreas com irrigação no cerrado tem possibilitado a manutenção de culturas durante todo o ano e tem sido um dos principais motivos para que as populações de insetos-pragas mantenham-se sempre em alta nessas regiões (Figura 6).

Figura 6 – Área irrigada, atundo como fonte de alimentação para insetos-praga durante o ano inteiro.

Além disso, a ausência de um fator ambiental que dificulte o crescimento das populações de insetos em determinados períodos do ano, como o inverno rigoroso nas regiões de clima temperado ou ausência de alimento em regiões de clima seco, tem acarretado gerações sobrepostas de insetos e que causam infestações quase que diárias de muitas espécies de insetos nos cultivos agrícolas nas nossas condições tropicais. Por esse motivo, aplicações de inseticidas têm sido realizadas em intervalos relativamente curtos e, ainda assim, danos significativos causados por insetos são observados nas culturas com importância econômica.

A pergunta que fica é: por que vivemos a década das pragas? Tudo se deve ao nosso sistema tropical de produção que possibilita cultivar o ano inteiro? Os fatores e agentes causais são muitos e vão desde pequenas escolhas que a sociedade urbana faz no seu dia-a-dia até decisões feitas por agricultores, empresas e governos. Quando uma dona de casa decide por um tomate sem furos causados por insetos ou quando compramos roupas e pagamos preços muito mais elevados por uma peça com fibra de algodão de maior qualidade, nós somos agentes da década das pragas. Quando o governo deixa de fazer uma política de extensão pública e deixa que a transferência de tecnologia seja feita quase que exclusivamente por empresas que comercializam os produtos de proteção, esse governo participa da década das pragas. Quando empresas privadas deixam de investir em pesquisa por produtos mais seletivos, essas empresas são responsáveis pela década das pragas. Quando agricultores deixam de realizar técnicas simples de manejo de pragas, como rotação de ingredientes ativos, áreas de refúgios, monitoramento de pragas e utilização de produtos seletivos, esses também são responsáveis pela década das pragas.

Um dos exemplos mais recentes do caos fitossanitário que vivemos hoje é a perda das tecnologias Bt. Nesse contexto, todos os segmentos – sejam sociedade, governo, empresas e agricultores – tiveram uma contribuição na perda de alguns eventos transgênicos. A rápida perda de eventos Bt em milho resultará no retorno dos inseticidas no sistema milho, com aplicações frequentes, doses mais elevadas e com custo maior à nossa saúde e ao meio ambiente (Figura 7). Quem mais ganha com tudo isso são as pragas que conseguem superar as barreiras impostas pelo homem. O que temos certeza é que teremos que conviver com pragas cada vez mais impactantes ao setor produtivo.

Figura 7- Milho atacado por lagartas, perda da tecnologia Bt.

Não sabemos se aprendemos as lições que a última década nos apresentou. Ficou clara nossa fragilidade perante um número crescente de problemas fitossanitários e constatamos termos grandes limitações para o controle de problemas fitossanitários fulminantes. Nossa incapacidade de acompanhar o fluxo gênico das espécies no timing agrícola pode ser evidenciada pela menor durabilidade dos eventos geneticamente modificados, pelos casos de resistência das pragas. Mostrar ao sistema produtivo de que o negócio agrícola depende inteiramente das leis da biologia clássica certamente será nosso maior desafio para os próximos 10 anos.

 

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