Implicações da qualidade fitossanitária das sementes na cultura do feijoeiro

Publicado em: 07/11/2017
Compartilhe:

Este material traz algumas implicações quanto a qualidade fitossanitária das sementes da cultura do feijoeiro.

  • Importância;
  • Modo de infecção;
  • Implicações na patogênese.

Importância

A semente possui extrema importância na implantação de qualquer cultura agrícola. São diversos os fatores que medem a qualidade de uma semente, tais sejam poder germinativo, vigor, pureza física, pureza genética e qualidade fitossanitária.

CONTIERO et al. (1999), consideraram a semente como um dos meios de disseminação mais eficiente de doenças e de transmissão de patógenos para áreas isenta. Além disso, os patógenos presentes nas sementes causam deterioração das sementes durante o armazenamento, além da produção de micotoxinas.

A utilização de sementes livres de patógenos impede tanto o estabelecimento de níveis elevados de inóculo inicial para diversas doenças, como a introdução de novos patógenos e/ou raças. Neste sentido a utilização de sementes fiscalizadas produzidas sob um programa fitossanitário é uma prática indispensável ao controle das doenças do feijoeiro.

A catação de sementes, principalmente no caso de lavouras pequenas, poderá ser útil no caso da antracnose e bacteriose, doenças cujos sintomas são visíveis no tegumento.

Constitui-se em prática responsável pela eliminação de significativa percentagem de sementes infectadas, ou mesmo de estruturas de sobrevivência (esclerócios) que podem acompanhar a semente.

Deve ser destacado que a utilização de sementes com qualidade sanitária mínima é um dos fatores mais cruciais dentro do sistema de produção que visem alta produtividade.

 

Modo de infecção

A infecção das sementes pode ocorrer pela ação e ou interação entre vários fungos, que podem ser saprófitas ou patogênicos, de forma que competem pelo mesmo substrato (semente).

Isto promove um aumento da fonte de inóculo inicial, após a semeadura, além de elevar a probabilidade de infecção das sementes (ALMEIDA, 1999), tendo em vista que no processo de germinação e emergência das plântulas, os patógenos presentes na semente reassumem o crescimento, que até então estava na forma latente.

Deve-se dar total importância ao papel epidemiológico das sementes infectadas, considerando-as como fonte de inóculo inicial. Assim, torna-se necessário um conjunto de medidas que vise garantir uma melhor qualidade da semente produzida.

A semente pode sofrer a infecção dos patógenos externamente através de estruturas de sobrevivência aderidas, sub-epidermicamente através das mesmas estruturas de sobrevivência ou esporos/micélio dormente.

Ainda, os patógenos podem alojar-se no endosperma e embrião. Alguns patógenos podem manter-se viáveis longamente, tais como o Vírus do Mosaico comum do feijoeiro (mais de 3 anos), antracnose (mais de 2 anos),

Rhizoctonia solani (mais de 3 anos), Fusarium spp., Sclerotinia sclerotiorum, Sclerotium rolfsii (capazes de persistir na semente por mais de 3 anos).

 

Rhizoctonia solani  em feijão
Fusarium em feijão
Sclerotinia sclerotiorum em feijão
Sclerotium rolfsii em feijão

 

Implicações na patogênese

Sobrevivência


A importância dos clamidosporos como unidades de sobrevivência, infecção e disseminação têm sido demonstradas (Nash et al., 1961; Burkholder, 1919; Christou & Snyder, 1962).

Clamidosporos aderidos a sementes de feijão germinam em até 16 horas, o que não se constitui em uma vantagem para o estabelecimento da patogênese (Cook & Snider, 1965), mas que aparentemente não afeta a severidade de epidemias causadas por F. solani f.sp. glycines (Hall, 1996) as quais têm sido desencadeadas mesmo com uma baixa concentração de clamidosporos aderidos às sementes.

Estes resultados mostram que os clamidosporos são elementos decisivos na patogênese tanto pela sua capacidade de acompanhar as sementes (Nash & Snider, 1964), como na sua persistência no solo (Hall, 1996).

A probabilidade dos clamidosporos de Fusarium solani f.sp. phaseoli presentes em partículas de solo serem transportados na massa de grãos e acarretarem infecção direta das sementes devido ao desenvolvimento de micélio do patógeno nos tecidos do hospedeiro já foi relatada por Nash & Snider (1964).

A inibição na formação de clamidosporos no solo pode ser relacionada a altos níveis de nutrientes e favorecida por déficits minerais ou fatores químicos diversos (Alexander et al., 1966).

Resíduos de tecidos infectados de plantas são freqüentemente citados como os principais meios de introdução de doenças através das sementes (Maude, 1996).

 

Transmissão de doenças

A transmissão de patógenos através das sementes pode ocorrer pela presença de organismos junto às sementes devido à presença de esporos ou estruturas de sobrevivência junto às sementes (Scott & Evans, 1984; Nash & Snider, 1964; Baker, 1972; Neergaard, 1977), ou devido à transmissão dos organismos aderidos ou no interior de resíduos de colheita (Neergaard, 1977).

As estratégias de transmissão empregadas pelos patógenos nem sempre são aparentes, embora possam estar ligadas tanto à localização dos resíduos como à biologia do patógeno em estudo.

Alguns dos fungos transmitidos desta forma são Gaeumannomyces graminis, Ascochyta rabiei, Septoria linicola e S. apiicola (Neegaard, 1977).

Dentre as doenças que atacam o feijoeiro, e capazes de reduzir consideravelmente a produção de grãos, destacam-se a antracnose (Colletotrichum lindemuthianum), a mancha angular (Phaeoisariopsis griseola), a Mancha de Alternaria (Alternaria solani), o Crestamento Bacteriano Comum (Xanthomonas axonopodis), podridões radiculares (Rhizoctonia solani, Fusarium solani, Fusarium solani f.sp. glycines, Sclerotinia sclerotiorum, Sclerotium rolfsii), Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli (murcha), Macrophomina phaseolina (mofo cinzento), Vírus do Mosaico Comum (BCMV).

As estratégias de controle preconizadas para controle deste grupo de patógenos inclui a utilização de sementes livres do patógeno, tratamento de sementes e sistemas de produção de sementes através de programas de controle com fungicidas. A partir de estudos epidemiológicos foi determinado que a dispersão de Colletotrichum lindemuthianum é otimizada a partir de 0,5% de sementes infectadas/ha, desde que ocorra apenas uma precipitação acompanhada por vento (TU, 1982).

 

Produção de sementes

A qualidade tecnológica de grãos de feijoeiro depende diretamente da qualidade dos grãos no momento da colheita. Essa qualidade é afetada tanto por características genéticas inerentes a cada cultivar como a exposição a fatores bióticos e abióticos adversos. Critérios para inspeção de campos de produção de sementes têm sido sugeridos.

Outro aspecto relacionado com a qualidade fisiológica da semente relaciona-se ao estabelecimento de patógenos de armazenamento e às condições com que a semente é colhida. Na medida em que a semente é colhida com teores mais elevados de umidade e, posteriormente, armazenada com teores mais elevados de umidade relativa e temperatura mais elevada, a armazenabilidade das sementes de feijoeiro é diminuída.

 

Tratamento de sementes

As sementes de feijão constituem-se em eficiente veículo de disseminação de patógenos causadores de manchas necróticas na parte aérea, destacando-se antracnose, (Colletotrichum lindemuthianum) e mancha angular (Phaeisariopsis griseola), patógenos causadores de tombamento e podridões radiculares (Rhizoctonia solani, Fusarium solani, Pythium spp).

Um dos aspectos ligados à eficácia dos fungicidas registrados para o tratamento de sementes de feijão é a uniformidade de distribuição sobre a semente. É recomendável que o equipamento utilizado para semeadura seja regulado com a semente tratada. Atualmente são registrados e recomendados para o tratamento de sementes de feijoeiro diversos fungicidas.

Para identificar os organismos associados à semente e orientar a escolha do ingrediente ativo mais adequado para ser utilizado no tratamento das sementes, é recomendável a realização de um teste de patologia de sementes, em laboratório especializado.

Neste sentido, a utilização de misturas de fungicidas permite um espectro de controle mais amplo, permitindo que o estabelecimento da plântula ocorra sem que a interferência danosa de microorganismos possa interferir negativamente sobre o vigor das plântulas bem como na população das mesmas.

 

Referenciais bibliográficos

ALMEIDA, A. M. R.; FERREIRA, L. P.; YORINORI, J. T..; SILVA, J. F. V.; HENNING, A. A.Doenças da soja. In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIM FILHO, A.; CAMARGO, L. E. A.; REZENDE, J. A. M. Manual de Fitopatologia. 3 ed. São Paulo: Ceres, 1997. Cap.61, p. 642-664.
BALARDIN, C. R. R. Resistência Genética e Transmissão da Podridão Vermelha da Raiz da Soja. Tese de Mestrado. UFSM. Santa Maria. 2001. 118p.
BALARDIN, R.S.; RUBIN, C.; GELAIN, E.; DALMOLIN, C.; FACCO, O. Efeito de níveis de poder germinativo, tratamento fungicida da semente e da parte aérea sobre o progresso de antracnose (Colletotrichum lindemuthianum) na cultivar FT 120. In: Reunião Técnica do Feijão e outras leguminosas de Grãos alimentícios, 24. Santa Rosa: COTRIROSA, 1991. (resumo).
BAKER, K.F. Seed Pathology. In: KOZLOWSKI, T.T. (ed.) Seed Biology, vol 2. Academic Press, New York. P.317-416. 1972.
FERNANDEZ, C.M.A.; DHINGRA, O.D.; KUSHALAPPA, A.C. 1987. Influence of primary inoculum on bean anthracnose prevalence. Seed Science & Technol, 15:45-54.
FNP – AGRIANUAL. Anuário da Agricultura Brasileira 2001. São Paulo, FNP. 546p.
GUZMAN, P., DONADO, M.R., GALVEZ, G.E. 1979. Pérdidas econômicas causadas por la antracnosis del frijol (Phaseolus vulgaris L.) en Colômbia. Turrialba, 29:65-67.
HARTMAN, G. L.; HUANG, Y. H.; NELSON, R. L.; NOEL, G. R. Germplasm evaluation of Glycine max for resistance to Fusarium solani, the causal organism of sudden death syndrome. Plant Disease, v. 81, n. 5, p. 515-518, 1997.
LOLLATO,M.A. 1983. Efeito da aplicação foliar de fungicidas sobre a qualidade de sementes de feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.). Piracicaba, ESALQ / USP. 99p. (Dissertação - Mestrado).
LOREZON, D. A. Síndrome da Morte Súbida (Fusarium solani f. sp. glycines), ocorrência e prejuízos causados à cultura da soja. 1999. Monografia (Especialização) – Unicruz, Cruz Alta – RS.
MENTEN, J.O.M. & BUENO, J.T. Transmissão de patógenos pelas sementes. In: SOAVE, J. & WETZEL, M. Patologia de Sementes. Cargil, Campinas. P. 164-189. 1987.
NASH, S.M. & SNIDER, W.C. Dissemination of the root rot Fusarium with bean seed. Phytopathology 51:308:312. 1961.
NEERGAARD, P. Seed Pathology. Vol 1 & 2. Macmillan, London. 1977.
NELSON, B. D. Sudden Death Syndrome.In: HARTMAN, G. L., SINCLAIR, J. B., RUPE, J. C. Compendium of soybean diseases. 4. ed. St. Paul: Aps Press. 1999.
RUPE, J. Epidemiology of Sudden Death Syndrome of Soybean. In: ANAIS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE SOJA, 1999, Londrina. Anais... Londrina: EMBRAPA Soja, 1999. 533 p.
SCHERM, H. & YANG X. B. Development of Sudden Death Syndrome of soybean in relation to soil temperature and soil water matric potential.Phytopathology, v. 86, n. 6, 1996, p. 642-649.
SCOTT, S.W. & EVAM, D.R. Sclerotinia of Sclerotinia trifoliorum in red clover seed. Transaction of the British Mycological Society. 82:567-569. 1984.
SINDHAN, G.S. 1983. Effect of temperature and relative humidity on the development af anthracnose french bean. Progressive Horticulture, 15:132-135.
SINDHAN, G.S. & BOSE, S.K. 1981. Epidemiology of anthracnose of french bean caused by Colletotrichum lindemuthianum. Indian Phytopathology, 34:484-487.
TU, J.C. 1981. Anthracnose (Colletotrichum lindemuthianum) on white bean (Phaseolus vulgaris L.) in southern Ontario: spread of disease from an infection focus. Plant Disease, 65:477-480.
VON QUALEN, R. H.; ABNEY, T. S.; HUBER, D. M. e SCHREIBER, M. M. Efects of rotation, tillage, and fumigation on premature dying of soybeans. Plant Disease, v. 73, p. 740-744, 1989.
ZAUMEYER, W.J. & THOMAS, H.R. 1957. A monographic study of bean diseases and methods for their control. Waschington, United States Departament of Agriculture. 225p. (USDA. Tech.Bull., 868).

 

 

Autor(a)

Ph.D. Ricardo Balardin

MATERIAIS MAIS ACESSADOS:
VOCÊ PODE GOSTAR:

Você precisa fazer login para postar comentários!