Fatores que afetam a eficácia de fungicidas nos trópicos

Publicado em: 24/02/2022
Compartilhe:

O material apresenta alguns fatores que afetam a aplicação de fungicidas nos vegetais, relacionados ao residual do produto nas plantas


A eficácia dos fungicidas em condições tropicais é influenciada pela dinâmica populacional dos patógenos, pelo elevado crescimento vegetativo das culturas, e pelas várias espécies de patógenos atacando todo o ciclo da planta.

Os fatores que afetam a eficácia do fungicida podem ser resumidos como a quantidade de fungicida que atinge o tecido vegetal no dossel, o manejo cultural da cultura, a dinâmica do patógeno e da população de plantas e o manejo de hospedeiros alternativos ou intermediários.

O resultado da aplicação do fungicida é medido pelo residual absoluto ou relativo. As culturas agrícolas importantes, em sua maioria, recebem de 2 a 10 pulverizações com fungicidas por safra.

Tal volume sugere impactos negativos sobre o meio ambiente, dificuldades para a sustentabilidade do agricultor, custo de produção elevado e necessidade de desenvolvimento contínuo da tecnologia fungicida.

 

Conceito de residual absoluto e relativo

O residual de um fungicida depende das características químicas de cada grupo. O residual absoluto representa o período de maior atividade fungicida, enquanto o residual relativo variará de acordo com a interação entre as características intrínsecas do fungicida, o estádio da patogênese e as condições fisiológicas gerais da planta no momento da pulverização. Este manuscrito apresentará os fatores e suas correlações, que influenciam o residual e fazem a diferença tão grande entre residual absoluto e relativo.

 

Momento de aplicação: preventivo x curativo

Um dos fatores mais críticos que determinam o nível da eficácia do fungicida é o momento de aplicação. Em condições tropicais o momento de aplicação depende da combinação entre patogênese, estádio da planta, condições ambientais e condições gerais da cultura.

Como novas doenças estão continuamente infectando as culturas e infectando em estádios mais precoces do ciclo da planta, as pulverizações passaram de preventivas para curativas resultando em maior dificuldade para eliminar completamente o inóculo. As pulverizações anteriores à deposição dos esporos no tecido vegetal são consideradas preventivas.

Em contrapartida, a aplicação curativa é aquela que ocorre desde o início da infecção fúngica até o início da esporulação. As aplicações preventivas resultam em maior residual e menor possibilidade de aparecimento de esporos mutantes, resistentes / tolerantes devido à ausência de esporos sobreviventes.

As aplicações curativas normalmente deixam inóculos viáveis não controlados capazes de originar prontamente novos ciclos da doença.

Ensaios experimentais em condições controladas mostraram um residual duas vezes maior comparando aplicações preventivas e curativas. Além disso, aplicações erradicantes já não são eficazes em culturas anuais, sendo utilizadas apenas em frutas ou legumes.

 

Residual: fungicidas e fatores que afetam


Os ambientes tropicais são adequados para o desenvolvimento de fungos. Junto com os principais patógenos, muitos patógenos secundários podem colonizar o hospedeiro durante todo o ciclo da cultura.

Atualmente a mistura de diferentes fungicidas é a mais utilizada. A mistura com efeitos sinérgicos entre os componentes dos fungicidas apresenta um residual relativo mais longo do que o observado quando os fungicidas são pulverizados isoladamente. Na ausência de sinergismos, o residual observado dependerá do alvo controlado.

O progresso da doença é um parâmetro epidemiológico que diferencia as doenças. A requeima da batata, a brusone do arroz, a ferrugem do trigo ou a ferrugem asiática da soja, em contraste com a mancha marrom de tomate, crestamento por cercóspora da soja ou septoriose do trigo sugere que doenças específicas exigem estratégias de manejo químico específicas devido a diferentes taxas de progresso.

 

Taxa de absorção

Além da patogênese, algumas características particulares da planta interferem na taxa de deposição e absorção do produto. As diferenças entre variedades, idade do tecido e frequência de chuva são determinantes para a taxa de absorção de fungicidas.

Ensaios realizados com soja indicaram 7 a 10 dias de redução do residual se uma chuva cair em até 24 horas após a pulverização. A aplicação de fungicida em diferentes variedades de soja tem mostrado uma diferença de até 5 dias de residual entre materiais.

 

Aplicação de fungicidas: tecnologia de pulverização, práticas culturais e fisiologia da planta

A tecnologia de aplicação ajustada ao arranjo da população de plantas, dossel vegetal e índice de área foliar é limitante considerando plantas com elevado índice de área foliar. Uma maior deposição de gotas e folhas totalmente cobertas pelo fungicida aumenta o residual relativo.

No entanto, é importante considerar que a deposição de fungicida a partir do topo das plantas cria um gradiente de pulverização com a diminuição da concentração do ingrediente ativo ao longo da planta. Como resultado, as folhas com alta atividade patogênica e baixo metabolismo fisiológico (de baixo) recebem a menor quantidade de fungicida.

A adequação da tecnologia de aplicação, medida pelos índices diâmetro mediano volumétrico e diâmetro mediano numérico está definitivamente relacionada com um período residual relativo mais longo.

Evidências experimentais apontaram para a necessidade do aumento do espaçamento entre linhas, proporcionando maior incidência de radiação solar na planta, mantendo as folhas no dossel inferior com maior atividade fotossintética e maior eficácia de controle.

À medida que as folhas mantêm maior atividade, melhor é a absorção do fungicida seguida de redução na produção inicial de etileno e estabelecimento do patógeno. Consequentemente, uma deposição facilitada do fungicida juntamente com uma redução da atividade patogênica afetará o residual do fungicida. 

Por outro lado, uma elevada população de plantas favorece diretamente a atividade patogênica e dificulta a penetração e deposição de fungicidas no dossel da cultura. Como resultado, um maior número de aplicações são necessários para alcançar um controle razoável. Contudo, uma absorção mais lenta, uma atividade metabólica reduzida da planta e uma maior densidade de patógenos restantes após cada pulverização tornam ainda mais baixa a taxa residual.

 

Observações finais

A eficácia da aplicação de fungicidas deve ser medida considerando o intervalo entre o período residual absoluto e relativo. A combinação entre as características intrínsecas do fungicida e o estabelecimento de estratégias de controle como o momento de aplicação do fungicida, densidade populacional de hospedeiros e patógenos, características gerais da planta como idade, nutrição e práticas culturais, e a expressão genética da resistência na planta estão entre os principais fatores que regulam o resultado da aplicação de fungicida em culturas em ambientes tropicais.


Autor(a)

Ph.D. Ricardo Balardin

MATERIAIS MAIS ACESSADOS:
VOCÊ PODE GOSTAR: