Fisiologia dos grãos de soja e as implicações na colheita Publicado em:

Este material complementa o texto "O que a fisiologia do grão de soja implica sobre o processo de colheita?" publicado no https://phytusclub.com/blog/

O material didático sobre como o processo de colheita influencia a qualidade dos grãos e o tempo de armazenamento dos produtos.

Neste material você vai encontrar aspectos importantes sobre a fisiologia dos grãos de soja como:

  • Introdução
  • Variáveis que influenciam a qualidade de grãos durante o armazenamento
  • Presença de O2
  • Umidade dos grãos
  • Temperatura dos grãos
  • Umidade de colheita adequada
  • Descontos no recebimento em função da umidade dos grãos

     

Introdução

O processo de colheita (Figura 1) tem muita influência sobre a qualidade dos grãos (Figura 2) e pode impactar diretamente no tempo de armazenamento dos produtos. Os grãos estão suscetíveis a danos como quebra e perda de qualidade, diretamente ligada ao ataque de pragas, fungos e atividade metabólica do próprio grão.

Figura 1 e 2– Colheita de soja (esquerda) e grãos de soja após a colheita (direita).

Os grãos após colhidos, mesmo que em estado de dormência, devem ser considerados como organismos vivos, apresentando atividade respiratória. É em função dessa atividade metabólica que os grãos são suscetíveis de sofrerem transformações e posterior deterioração.

Sob condições aeróbicas, carboidratos e lipídios sofrem oxidação formando CO2 e H2O, processo que libera energia na forma de calor. O processo de respiração implica em desgaste das substâncias nutritivas do produto e pode refletir em perda de qualidade, que pode ser medida pela quantidade de CO2 gerada por massa de grãos por dia.

Por isso, no armazenamento de grãos, o objetivo é oferecer condições que desfavoreçam a atividade metabólica dos grãos e previnam o crescimento de microrganismos e pragas que podem vir a causar deterioração do produto. O sucesso do armazenamento dos grãos sofrerá influência de diversas variáveis como umidade dos grãos, temperatura, danos mecânicos, concentração de O2, dentre outros.

 

Variáveis que influenciam a qualidade de grãos durante o armazenamento

Presença de O2

Os grãos quando armazenados formam uma massa porosa constituída dos próprios grãos e do ar intersticial. O espaço ocupado pelo ar entre os grãos é de 40% a 45%. Este espaço pode ser determinado facilmente colocando-se uma certa quantidade de grãos em um recipiente graduado e, em seguida, adiciona-se um líquido que não seja absorvido pelos grãos, como por exemplo óleo. Medindo-se a quantidade do líquido necessário para encher os espaços vazios até a superfície dos grãos, temos o volume do espaço entre os grãos. O oxigênio existente nesse espaço é utilizado no processo respiratório dos grãos.

 

Umidade dos grãos

O teor de umidade é considerado o fator mais importante no controle do processo de deterioração de grãos armazenados. Grãos com reduzida umidade e frios são favoráveis a manutenção da qualidade do produto. A umidade apresenta influência direta sobre outros fatores, sendo assim, quando este parâmetro é ajustado, os demais fatores tem seu efeito reduzido.

O processo respiratório nos grãos é significativamente reduzido sob baixos teores de umidade. Isso é inteiramente desejável, já que as alterações provocadas nos grãos pela atividade metabólica acelerada pode inviabilizar a utilização desse. Se as condições de armazenamento permitirem uma elevada atividade respiratória dos grãos, a própria reação pode refletir em aumento da atividade metabólica, por aumentar a umidade do produto e a temperatura (gera água e calor) (Equação 1).

Eq.1: Carboidratos (glicose) + O2 -----------> CO2 + H2O + calor

Nesse caso, grãos danificados, com alto teor de umidade, podem apresentar atividade respiratória até 50 vezes maior, medida por ml CO2 g semente-1 por dia, comparado a grãos inteiros com umidade baixa.

O manejo de pragas, de percevejos por exemplo, é considerado uma ferramenta para evitar os danos diretos aos grãos, pois esses insetos aceleram o processo respiratório e a deterioração dos grãos (Figura 3).

A redução dos danos aos grãos durante o ciclo da cultura e no momento da colheita aliado a correta umidade se tornam decisivos para uma qualidade de armazenamento.

 

Temperatura dos grãos

Os grãos de soja geralmente são colhidos com umidade correta (13-15%). Grãos com umidade acima devem passar pelo processo de secagem, o que encarece os custos com armazenamento. Mas além do controle da umidade dos grãos, a temperatura no interior do silo também deve ser monitorada e controlada, pois é altamente importante no armazenamento. O aumento da temperatura está diretamente relacionado a aumentos na atividade respiratória dos grãos.

A respiração dos grãos é aumentada significativamente a partir de 25°C de forma crescente até 40°C, reduzindo posteriormente. As reações químicas catalíticas e não catalíticas nos grãos são mais aceleradas a medida em que a temperatura aumenta, assim a hidrólise do amido e gorduras tendem a ser maiores. Além disso, existe uma relação direta entre a temperatura de grãos armazenados e a ocorrência de infecção por fungos. Fungos de armazenamento são favorecidos por temperaturas na faixa de 28 a 32°C e umidade mais alta dos grãos.

Em situações de umidade e temperatura fora da faixa adequada há o favorecimento ao processo respiratório e atividade de fungos. Nesse caso, as reações metabólicas nos grãos direcionam para a produção de calor, de acordo com a Equação 1.

A produção excessiva de calor pode levar ao aquecimento excessivo dos grãos. Quando o aquecimento ocorre em determinada região da massa total de grãos, pode se formar o que chamamos de “bolsa de calor”. O calor produzido nessa região pode acumular-se rapidamente em função dos grãos possuírem baixa condutividade térmica. A deterioração do produto nessa região pode ser acentuada.

 

Umidade de colheita adequada

A colheita dos grãos de soja tanto em umidade muito baixa (<13%), quanto em umidade elevada (>15%) não tem sido recomendada em função de favorecer os danos. No caso de umidade muito baixa, há o favorecimento a danos mecânicos imediatos e quebra de grãos.

Já umidade elevada, podem favorecer danos mecânicos latentes (não aparentes) com implicações negativas no processo de armazenamento posterior. O teor de umidade ideal tem sido observado entre 13 e 15% para soja, na qual os problemas com danos mecânicos e perdas na colheita têm sido menores.

 

Descontos no recebimento em função da umidade dos grãos

A taxa de desconto será em função da quantidade de água a ser removida do produto no processo de secagem. Após a retirada das impurezas dos grãos, utilizando-se peneira, a amostra limpa é colocada no aparelho para medição da umidade. A Tabela 1 mostra um exemplo de descontos gerados em função da umidade de recebimento dos grãos de soja.

O desconto é aplicado sobre o peso total de grãos entregue, já descontada a porcentagem de impurezas. Após esses descontos gera-se o peso final de grãos pelo qual o produto será pago. Lembrando que quanto mais impurezas, como restos de plantas de soja, plantas daninhas, insetos, há reflexo no aumento de umidade dos grãos e consequentemente, maior os descontos.

Figura 4 – Lavoura de soja em ponto de colheita.

Tabela 1. Percentuais de descontos em função da umidade dos grãos. (Fonte: Comercial agrícola Maffini, safra 2016/2017).

 

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