Complexo Spodoptera, Helicoverpa armigera e Broca-da-cana: o que essas lagartas têm em comum?

Publicado em: 16/02/2022
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Conheça mais sobre as pragas monitoradas pela estação autônoma Tarvos LD

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O clima tropical brasileiro possibilita cultivos sucessivos (cultura da soja, milho, algodão, trigo, feijão) durante todas as estações e nas diversas regiões produtoras. Assim, os insetos praga encontram um ambiente ideal para se propagarem, já que a disponibilidade de alimento o ano todo facilita sua reprodução e dispersão, contribuindo para a sua estabilidade na lavoura. Além disso, a ausência de um inverno rigoroso como ocorre em países de clima temperado faz com que o número de espécies seja muito superior em países tropicais, dificultando ainda mais o manejo de pragas.

Importância da ordem Lepidoptera

Além de constituir uma das ordens mais diversas de insetos, a ordem Lepidoptera é a que possui o maior número de espécies que são consideradas pragas agrícolas. A fase larval desses artrópodes pode danificar todas as partes das plantas cultivadas, sendo responsáveis por prejuízos na ordem de bilhões de reais à agricultura brasileira.

Alguns exemplos de representantes importantes dos lepidópteros, especialmente na região neotropical, são as lagartas do complexo Spodoptera. Segundo um estudo realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da ESALQ (CEPEA) em 2019, essas espécies poderiam ter trazido um prejuízo de R$ 20,5 bilhões para os produtores de milho, caso não fossem controladas. Outras espécies que causam perdas expressivas aos produtores são a Helicoverpa armigera, causadora de prejuízos anuais de US$ 5 bilhões em virtude de seus ataques, e a Diatraea saccharalis, responsável por perdas que também chegam a R$ 5 bilhões por safra ao setor sucroenergético, reduzindo a produtividade agrícola e industrial e a qualidade do açúcar, além de gerar custos com inseticidas. 

Tais espécies de insetos são classificadas como pragas de extrema importância econômica no Brasil, principalmente devido a sua polifagia, que é o hábito de ingerir uma grande variedade de fontes alimentares, e ampla distribuição geográfica. Conheça mais sobre elas no decorrer deste post!

Complexo Spodoptera

O chamado Complexo Spodoptera engloba as espécies Spodoptera frugiperda, Spodoptera cosmioides e Spodoptera eridania, que apresentam características como alto potencial reprodutivo e de dispersão, bem como um ciclo de vida curto, ocasionando em múltiplas gerações por ano. São pragas de importância econômica devido a sua voracidade. Como desfolhadoras, essas lagartas podem consumir grande área foliar diária na soja, por exemplo, podendo ultrapassar o dobro de consumo quando comparadas às outras lagartas importantes na cultura. Esse grupo é considerado difícil de controlar, uma vez que a tecnologia Bt não possui boa efetividade em Spodopteras, e são relatadas falhas de controle por inseticidas frequentemente.

 


Spodoptera frugiperda

A Spodoptera frugiperda, conhecida como lagarta-do-cartucho ou lagarta militar, está amplamente distribuída nas regiões tropicais e subtropicais das Américas, estando também presente em todas as regiões brasileiras. São relatadas como hospedeiras desse inseto praga mais de 186 espécies de plantas. No Brasil, é considerada uma praga-chave da cultura do milho, apesar de causar significativos prejuízos a diversas outras culturas, como a soja e o algodão, devido a sua alta adaptabilidade. Além de causarem desfolha, lagartas de Spodoptera frugiperda podem cortar plantas jovens na base do caule, um hábito semelhante ao da lagarta rosca; bem como se alimentar de estruturas reprodutivas das plantas. Na cultura do milho, seu ataque durante a fase de enchimento dos grãos pode ainda comprometer a qualidade do produto colhido, devido à possibilidade de ser uma porta de entrada para patógenos, levando a um maior número de grãos ardidos.

Os adultos possuem hábito noturno, medem de 32 a 40 mm e possuem coloração das asas anteriores parda-escura e posteriores branca-acinzentada. Cada fêmea pode colocar cerca de 2.000 ovos, os quais são dispostos em camadas sobrepostas, podendo ter escamas provenientes das asas das fêmeas sobre eles. As lagartas adquirem coloração parda-escura até quase preta, dependendo da idade. Apresentam um “Y” invertido na parte frontal da cabeça e quatro pontos pretos no final do abdômen.

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Figura 1. Ciclo de desenvolvimento da Spodoptera frugiperda. Fonte: Elevagro.
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Figura 2. Danos de Spodoptera frugiperda. Fonte: Elevagro.
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Figura 3. Mariposas de Spodoptera frugiperda. Fonte: Fall armyworm: an identification guide in relation to other common caterpillars, a South African perspective

Spodoptera cosmioides

Spodoptera cosmioides (Lagarta das vagens) é uma espécie restrita à América do Sul. As lagartas alimentam-se de grande número de plantas cultivadas e espontâneas, sendo registrada em mais de 30 culturas no Brasil, incluindo soja, milho, algodão e café. Ocorrem em diferentes estágios de desenvolvimento das culturas, causando desfolha e danificando estruturas reprodutivas das plantas, o que faz com que a espécie tenha elevado potencial na redução da produção. 

Os adultos de Spodoptera cosmioides são mariposas de hábito noturno, medem cerca de 40 mm e sua longevidade média varia de 11 a 13 dias. As fêmeas possuem coloração parda com desenhos brancos nas asas e os machos têm as asas amareladas com desenhos escuros. As fêmeas ovipositam até 500 ovos por dia nas folhas do terço inferior das plantas, em camadas de ovos sobrepostas. A duração da fase larval é em média de 15 a 19 dias. As lagartas possuem a cabeça castanha-amarelada ou alaranjada e listras amareladas ao longo do corpo, com pontuações brancas e triângulos pretos. A fase pupal dura aproximadamente de 14 a 18 dias.

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Figura 4. Lagarta Spodoptera cosmioides. Fonte: Tatiane Loback (disponível em Elevagro).
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Figura 5. Mariposas de Spodoptera cosmioides. Fonte: Daniel H. Janzen, Guanacaste Dry Forest Conservation Fund e Phytus Group

Spodoptera eridania

Spodoptera eridania, também chamada de Lagarta das folhas, é nativa da região tropical das Américas e possui ampla distribuição no Brasil, estando entre as espécies mais importantes que ocorrem no continente americano. Tem sido relatada como praga primária nas culturas do algodão, soja, tomate e em frutíferas. Apresentam grande voracidade e capacidade reprodutiva, como outros representantes do gênero e, além do hábito desfolhador, as lagartas também se alimentam de estruturas reprodutivas das plantas. 

Os adultos medem de 33 a 38 mm, possuem hábito noturno e coloração parda-acinzentada, sendo que as asas dos machos apresentam um traço preto na margem e as das fêmeas possuem um ponto preto no centro. Uma fêmea oviposita cerca de 800 ovos, dependendo do hospedeiro. As posturas são cobertas por escamas provenientes do corpo das fêmeas, e a duração média desta fase é de quatro a seis dias. O período larval dura geralmente de 15 a 20 dias, dependendo da planta hospedeira. As lagartas possuem coloração escura, com faixas longitudinais amareladas. Uma das faixas laterais amarelas é interrompida por uma mancha escura no tórax. A duração do período pupal, que ocorre no solo, é de 9 a 11 dias.

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Figura 6. Lagarta Spodoptera eridania. Fonte: Tatiane Loback (disponível em Elevagro).
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Figura 7. Mariposas de Spodoptera eridania. Fonte: John Pickering / discoverlife.org

Helicoverpa armigera 

Helicoverpa armigera é considerada uma das pragas agrícolas mais importantes no mundo. No Brasil, encontra-se amplamente disseminada, tendo sido registrada pela primeira vez no país em 2013. O hábito alimentar, em associação com uma alta capacidade de dispersão, fecundidade e adaptabilidade a diferentes ambientes, tende a favorecer o sucesso da espécie como praga. Sua ocorrência já foi relatada em mais de 200 espécies de plantas hospedeiras. Podem causar danos a diferentes culturas de importância econômica, como algodão, leguminosas em geral, sorgo, milho, tomate, plantas ornamentais e frutíferas. As lagartas alimentam-se de folhas, principalmente brotos, bem como inflorescências, frutos e vagens. Os danos causados por essa praga podem ocorrer tanto na fase vegetativa como na reprodutiva das culturas, levando a perdas econômicas elevadas. 

O adulto é uma mariposa de 35 a 40 mm que possui comportamento noturno. As fêmeas possuem as asas anteriores amareladas e os machos asas cinza-esverdeadas. Cada fêmea pode colocar de 2.200 até 3.000 ovos sobre as plantas hospedeiras, o que caracteriza o elevado potencial reprodutivo desta espécie. Em seus primeiros ínstares as lagartas têm coloração que varia de branca-amarelada a marrom-avermelhada, adquirindo diferentes colorações à medida que crescem, que podem variar da amarela-palha ao verde.

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Figura 8. Ciclo de desenvolvimento da Helicoverpa armigera. Fonte: Elevagro.

 


 

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Figura 9. Lagarta Helicoverpa armigera de 5º ínstar em maçã de algodão. Fonte: Embrapa
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Figura 10. Lagarta Helicoverpa armigera. Fonte: Elevagro.
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Figura 11. Mariposas de Helicoverpa armigera. Fonte: Occurrence of Helicoverpa armigera (Lepidoptera: Noctuidae) on tomato in the Espírito Santo state

Broca-da-cana

A broca-da-cana (Diatraea saccharalis) é considerada uma das principais pragas da cana-de-açúcar e milho na América. No Brasil, está distribuída principalmente nas regiões canavieiras. Cerca de 65 espécies de plantas são relatadas como hospedeiras, entre pastagens, cana-de-açúcar, milho, sorgo, arroz, trigo e aveia. As lagartas desenvolvem-se nos caules das plantas até a fase de pupa, o que causa dificuldades no controle. Os danos causados pela alimentação das lagartas incluem a redução na biomassa das plantas e a suscetibilidade a doenças, já que fornecem portas de entrada para patógenos. 

Os adultos possuem 25 mm de envergadura e asas de coloração amarelada a marrom-amarelada. A fêmea é maior que o macho, normalmente apresentando abdômen mais volumoso e asas menos pigmentadas. Possuem hábito noturno e longevidade de aproximadamente uma semana. Os ovos são dispostos em agrupamentos de forma imbricada (formato de escamas de peixe). A lagarta é branca com a cabeça marrom e, de acordo com a estação do ano, pode exibir colorações diferentes.

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Figura 12. Ciclo de desenvolvimento da broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Fonte: Elevagro.
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Figura 13. Broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Fonte: PROMIP
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Figura 13. Mariposa da broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Fonte: Koppert

Importância do monitoramento

As características biológicas dessas espécies de pragas, bem como a dinâmica da agricultura brasileira, favorecem o aumento das populações, criando situações onde é cada vez mais difícil controlar essas lagartas.

O monitoramento é uma das bases mais importantes do Manejo Integrado de Pragas (MIP). É uma estratégia fundamental, principalmente porque o tamanho das lagartas e o nível de infestação influenciam diretamente no sucesso do controle. Quando as aplicações de produtos biológicos ou químicos são realizadas no momento certo, existem mais opções de produtos, a eficácia de controle é maior e os custos menores.

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Figura 14. Pilares do manejo integrado de pragas. Fonte: elaborado pelos autores. 

Assim, os programas de MIP requerem determinações precisas e rápidas dos níveis populacionais das pragas presentes no campo. É de fundamental importância a realização correta de amostragens periódicas, a fim de que sejam tomadas as melhores decisões em relação ao controle. Dessa forma, sistemas automatizados de monitoramento de insetos, como Tarvos View e Tarvos LD, são capazes de melhorar a eficácia e a eficiência de todo o processo, garantindo uma maior proteção da lavoura contra o ataque de lagartas.

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Figura 15. Plataforma Tarvos View. Fonte: elaborado pelos autores.

A plataforma Tarvos View, que se conecta com a prancheta e armadilhas digitais da Tarvos, permite a geração de gráficos e mapas de intensidade de infestação de pragas, doenças, desfolha e indicação da presença de nematoides, plantas daninhas e inimigos naturais. Os relatórios gerados possibilitam a obtenção de um histórico da área, além do acompanhamento da saúde da lavoura em tempo real.

 


Autor(a)

Me. Bárbara Castro

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