DRES: A ferramenta para conhecer o solo. Parte 1 Publicado em:

Neste material você vai conhecer um pouco mais sobre:

  • O método desenvolvido por pesquisadores da Embrapa e da Universidade Estadual de Londrina para a avaliação da qualidade do solo;
  • Como identificar os efeitos de uma prática agrícola sobre a estrutura do solo de forma rápida, fácil e barata;
  • Os cuidados na amostragem e como coletar o solo para fazer o DRES

O solo é a base que sustenta a produção agrícola e apresenta relação íntima e direta com o rendimento obtido nos sistemas agrícolas. E cada vez mais buscamos manejos e tecnologias aplicados à agricultura que contribuam para alcançar maior sustentabilidade dos agroecossistemas (REICHERT; REINERT; BRAIDA, 2003).

Mas como saber se o nosso solo é bom ou ruim?

Os manejos escolhidos estão prejudicando ou melhorando a qualidade do solo?

Para Doran e Parkin (1996), o solo com qualidade é aquele que apresenta a capacidade de manter, simultaneamente, produtividade, biodiversidade vegetal e animal, melhorar a qualidade do ar e da água e permitir a habitação e saúde humana, dentro dos limites de um ecossistema ou agroecossistema.

Entretanto, medir uma única propriedade do solo como resposta à um certo manejo utilizado em determinada situação não é suficiente, pois o solo é um recurso dinâmico resultante da interação complexa entre componentes físicos, biológicos e químicos. Sendo assim, é preciso utilizar indicadores de qualidade ou de degradação do solo, pois se estas propriedades fossem medidas diretamente, seriam preciso analisar muitas variáveis para chegar a um resultado confiável (KARLEN et al., 1997).

Os indicadores do solo podem ser biológicos, químicos e físicos (DORAN; PARKIN, 1996). Todavia, grande parte destes indicadores seguem elaborados métodos laboratoriais que, embora exatos, são de difícil aplicação e interpretação em condições de campo, além de caros quando pensamos em larga escala. Portanto, é preciso buscar metodologias de fácil e rápida execução, que sejam baratas e confiáveis para avaliar a qualidade do solo. Nesse cenário temos a avaliação visual da qualidade do solo, método que infere sobre a qualidade ou degradação do solo pela visualização da estrutura do mesmo, fornecendo informações de forma rápida, confiável e de baixo custo (AMADO et al., 2007).

Os métodos tradicionais de avaliação visual são Avaliação Visual da Qualidade do Solo – AVS (SHEPHERD, 2000) e Avaliação Visual da Qualidade da Estrutura do Solo – VESS (BALL et al.,2007). Ambos métodos são muito utilizados, o AVS para a avaliação quantitativa de grandes áreas da paisagem, e o VESS para avaliar a qualidade da estrutura dos solos sob diferentes sistemas de uso e gestão. Entretanto, também apresentam limitações, já que o AVS necessita de complementação por medições laboratoriais e o VESS não reconhece a total desagregação do solo (solo pulverizado) como um problema e sinal de degradação da estrutura, comum em situações de revolvimento intenso do solo, o que acontece muito nos sistemas agrícolas atuais (RALISCH et al., 2017).

Procurando contornar tais limitações e buscando um método ainda mais barato e adaptado às condições de solo encontradas no Brasil, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Estadual de Londrina desenvolveram Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo – DRES, um dos métodos mais novos no cenário de avaliação da qualidade do solo (RALISCH et al., 2017).

O DRES foi elaborado para avaliar a estrutura de solos tropicais e subtropicais de maneira rápida, fácil, barata, com a menor intervenção possível no local de análise e de fácil interpretação.

Fazendo a avaliação a camada superficial do solo, observando as características dos primeiros 25 centímetros de profundidade, onde se refletem os maiores impactos causados pelo manejo de solo realizado naquele sistema. Pode ser feito por qualquer pessoa, seja estudante, técnico ou agricultor para avaliar e também monitorar a qualidade do solo, identificando os efeitos de diferentes sistemas de produção sobre a estrutura do solo, o efeito imediato de uma prática agrícola e ainda sua evolução no tempo. Assim, auxilia no processo de tomada de decisão sobre as ações a serem realizadas de imediato e sobre o planejamento futuro para melhorar ou manter a qualidade do solo.

No método são conferidas notas de 1 a 6 ao solo pela observação dos seguintes critérios: tamanho e forma dos agregados e torrões, presença de aspectos de compactação e degradação do solo, forma e orientação das fissuras, rugosidade das faces de ruptura, resistência à ruptura, distribuição e aspecto do sistema radicular e evidências de atividade biológica.

 

Para fazer o DRES são precisos poucos materiais facilmente encontrados:

  • enxada
  • pá de corte
  • bandeja plástica com 25 cm de largura
  • faca
  • régua para medição das camadas
  • divisórias e prancheta com papel para anotações
  • lupa, máquina fotográfica ou celular para tirar fotos e GPS para a obtenção das coordenadas do ponto de coleta são opcionais.

Para a amostragem, é preciso coletar o solo em locais representativos dentro de glebas homogêneas, com os mesmos cuidados observados para a realização de uma análise de solo para encontrar pontos amostrais representativos dentro da gleba homogênea. Quanto maios a gleba avaliada, maior é o número de pontos amostrais necessários.

Um ponto importante na coleta é a umidade do solo. Um solo muito úmido ou muito seco, pode facilitar ou dificultar o esboroamento e a manipulação da amostra, onde a consistência friável do solo é a ideal para proceder com a análise. E, quando se deseja repetir a análise ao longo do tempo para monitoramento, é indispensável fixar um período do ano, repetindo também as condições ambientais e o local de realização da coleta, para a geração de dados confiáveis.

De uma pequena trincheira (Figura 1) (40 cm x 30 cm x 30 cm) perpendicular à linha de cultivo se retira um bloco de solo inteiro de 25 cm de altura, 20 cm de largura e 10 cm de espessura, coletado da entrelinha ou com o menor número possível de linhas de cultivo quando a coleta é feita durante o ciclo produtivo. Com a pá de corte se retira o bloco e com o auxílio da faca ou canivete, se aparam as margens para que o bloco coletado tenha as dimensões requeridas.

Figura 1 – Pequena trincheira aberta para avaliação do solo na entressafra.
Fonte: Daiane Dalla NoraLegenda

Dentro da bandeja de plástico, amostra deve estar disposta de forma que a profundidade de 25 cm coincida com a largura da bandeja, evitando que ao destorroar o solo se perca a profundidade e a espessura real das camadas. Cuidadosamente com as mãos a amostra deve ser manipulada, aplicando força em diversos sentidos no torrão de solo, encontrando os pontos de ruptura, a fim de fragmentar estes em agregados ou torrões menores. É preciso um pouco de prática e repetição para se destorroar o bloco corretamente, sem deixar os torrões inteiros ou quebrar os agregados demasiadamente. Já que é indispensável para avaliação correta manipular o torrão até chegar aos agregados, pois a partir da observação das características dos mesmos, juntamente com o aspecto do sistema radicular e grau de atividade biológica é que são dadas as notas de cada camada, e a partir das notas da camada se chega ao score da amostra e, consequentemente a nota final de toda a área homogênea avaliada.

 

Na Parte 2, aprenda como identificar camadas na amostra, quais os critérios observados na determinação das notas e como interpretar o resultado, transformando-o em ações concretas visando a qualidade do solo.

 


Referências bibliográficas

AMADO, T. J. C. et al. Qualidade do solo avaliada pelo “Soil Quality Kit Test” em dois experimentos de longa duração no Rio Grande do Sul. R. Bras. Ci. Solo, v. 31, p. 109-121, 2007.

BALL, B. C.; BATEY, T.; MUNKHOLM, L. J. Field assessment of soil structural. Quality: a development of the Peerlkamp test. Soil Use and Management, v. 23, p. 329-337, 2007.

DORAN, J.W.; PARKIN, T.B. Quantitative indicators of soil quality: a minimum data set. In: DORAN, J.W.; JONES, A.J. (Eds.). Methods for assessing soil quality, Wisconsin, p. 25-37, 1996.

KARLEN, D. L. et al. Soil Quality: A Concept, Definition, and Framework for Evaluation. Soil Science Society of America Journal, v. 6, n. 1 p. 4-10, 1997.

RALISCH, R. et al. Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo – DRES. Embrapa Soja: Documentos 390, Londrina, jun. 2017.

REICHERT, J. M.; REINERT, D. J.; BRAIDA, J. A. Qualidade dos solos e sustentabilidade de sistemas agrícolas. Ciência & Ambiente: Agricultura Sustentável, Santa Maria, v. 27, jul./dez. 2003.

SHEPHERD, T. G. Visual Soil Assessment: Volume 1. Field Guide for Pastoral Grazing and Cropping on Flat to Rolling Country. 2 ed. 119 p. 2000.

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