Coinoculação em soja com Bradyrhizobium e Azospirillum: aumento da produtividade, sustentabilidade e baixo custo

Publicado em: 16/02/2022
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Coinoculação e suas vantagens para a cultura da soja.

Neste conteúdo você vai saber mais sobre:

  • A diferença na interação e na colonização de Bradyrhizobium e Azospirillum em soja
  • Como é vantajoso financeiramente usar a Coinoculação em soja

A coinoculação em soja é uma tecnologia recente no Brasil, em sintonia com a abordagem atual de uma agricultura mais sustentável, mas que busca satisfazer as demandas dos altos rendimentos. Essa técnica é uma ferramenta que consiste em adicionar mais de um microrganismo benéfico às plantas, visando que essa contribuição resulte em aumento da produtividade. Assim, combina uma prática já bem conhecida pelos produtores, que consiste na inoculação das sementes de soja com bactérias fixadoras de nitrogênio (N), conhecidas como Bradyrhizobium, adicionando o gênero Azospirillum, uma bactéria até então conhecida por sua ação promotora de crescimento em gramíneas.

O Brasil tem sido considerado um país modelo na aplicação dos benefícios da fixação biológica do N2 (FBN) realizada por bactérias diazotróficas (nome dado a um grupo de bactérias que possui uma enzima nitrogenase), que realizam um processo biológico no qual esses microrganismos convertem o nitrogênio do ar (N2) em amônia (NH3). Hoje no Brasil a grande maioria das tecnologias que usam FBN se dividem em dois grupos de microrganismos, um grupo composto por bactérias associativas e outro por bactérias simbiontes.

O impacto do uso da inoculação sobre a estrutura de custos dos tratos culturais da soja é muito importante, pois a exigência da cultura gira em torno de 80 kg N ha-1 para cada 1000 kg de grãos produzidos. A título de exemplificação, considerando-se uma produtividade esperada para a cultura da soja girando em torno de 3,6 t ha-1, demandaria quantidade aproximada de 640 kg de ureia ha-1. Considerando o custo médio da ureia em R$ 1.300,00.t-1, haverá um aumento no custo final de R$ 832,00 ha-1, impactando negativamente na viabilidade econômica da produção agrícola.

Na figura 1 é apresentado um esquema demonstrando a diferença entre bactérias simbiontes e bactérias associativas em soja. Na cultura da soja, as bactérias simbiontes correspondem às estirpes de Bradyrhizobium, que em simbioses produzem os nódulos, capazes de suprir totalmente a demanda da planta por nitrogênio. Estudos indicam para contribuições da FBN da ordem de mais de 300 kg de N ha-1, além da liberação de 20 a 30 kg N ha-1 para a cultura seguinte (HUNGRIA et al., 2013). 


As bactérias associativas são um grupo de microrganismos benéficos capazes de promover o crescimento das plantas por meio de vários processos, incluindo a produção de hormônios de crescimento (como auxinas, giberelinas, citocininas e etileno), a indução de resistência sistêmica a doenças e estresses ambientais, a capacidade de solubilizar fosfato e, também, de realizar FBN. Dentre essas bactérias, destacam-se as pertencentes ao gênero Azospirillum, utilizadas mundialmente como inoculantes (HUNGRIA et al., 2013).

Figura 1.  Diferença entre bactérias simbiontes e bactérias associativas em soja. Fonte: Anderson Marques (2020).

Figura 1.  Diferença entre bactérias simbiontes e bactérias associativas em soja. Fonte: Anderson Marques (2020).

Na Tabela 1, onde são apresentados dados de coinoculação (HUNGRIA et al., 2013), na safra 2009/2010, em Londrina, o tratamento inoculado somente com Bradyrhizobium resultou em ganhos no rendimento de 214 kg ha-1 (8 %), incrementando para 296 kg/ha (11,1 %) com Azospirillum. Em Ponta Grossa, a ocorrência de severa deficiência hídrica resultou em baixos rendimentos, mas os ganhos observados foram ainda mais expressivos do que em Londrina, de 244 kg ha-1 (12,3 %) pela inoculação com Bradyrhizobium, subindo para 520 kg ha-1 (26,3 %) com a coinoculação com Azospirillum no sulco.

Na safra de 2010/2011, os benefícios da reinoculação anual com Bradyrhizobium foram confirmados em ambos os locais: a reinoculação resultando em incrementos no rendimento de grãos de 152 kg há-1 (4,5 %) em Londrina e de 278 kg ha-1 (10,7 %) em Ponta Grossa (Tabela 1). Em relação ao controle não inoculado, foram de 475 kg/há (14,1 %) em Londrina e de 418 kg ha-1 (16 %).

Tabela 1. Efeito da inoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum no rendimento de grãos de soja. Fonte: adaptado de Hungria et al. (2013).

Tabela 1. Efeito da inoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum no rendimento de grãos de soja. Fonte: adaptado de Hungria et al. (2013).

No trabalho de Schneider et al. (2017), em soja na dosagem de 400 mL (Azo. 200 mL + Brad. 200 mL), o rendimento de 6.258 kg ha-1 obteve um aumento de 832 kg ou 13,3 % em comparação ao tratamento não inoculado (Figura 2), que foi o menor com 5.426 kg ha-1. Este elevado rendimento de 6.258 kg ha-1 equivale a 13,9 sacas ha-1 de 60 kg ha-1.

Figura 2. Rendimento de grãos em kg por hectare (ha-1). Fonte: adaptado de Schneider et al. (2017).

Figura 2. Rendimento de grãos em kg por hectare (ha-1). Fonte: adaptado de Schneider et al. (2017).

A maior diferença de rendimento foi no tratamento de Brad. 200 mL + Azo. 200 mL comparativamente ao não inoculado, em valores de 832 kg ha-1 ou 13,9 sacas ha-1. Essa quantidade calculada a um preço médio de R$ 100,00 sacas-1, equivale a R$ 1.386,00 ha-1, sendo que esse tratamento teve um custo de R$ 45,16 ha-1 e obteve-se, assim, uma margem líquida de R$ 1.344,8 ha-1, tornando a prática de coinoculação economicamente viável.

Tabela 2. Custo e margem líquida da inoculação e coinoculação por hectare (ha-1).

Tabela 2. Custo e margem líquida da inoculação e coinoculação por hectare (ha-1).

É evidente que a busca por qualificação juntamente com as informações técnicas melhorou a eficiência no rendimento da soja, tornando economicamente viável a prática da coinoculação. Essa é uma técnica rentável para o cultivo da soja e que deve ser explorada, uma vez que esse método apresenta vantagens de rendimento e ganhos econômicos, mostrando margem líquida positiva e que fornece viabilidade de utilização da coinoculação.

Referências

HUNGRIA, M.; NOGUEIRA, M. A.; ARAUJO, R. S. Tecnologia de co-inoculação da soja com Bradyrhizobium e Azospirillum: incrementos no rendimento com sustentabilidade e baixo custo. REUNIÃO DE PESQUISA DE SOJA DA REGIÃO CENTRAL DO BRASIL, 23., 2013. Anais [...] Londrina, PR, agosto de 2013.
SCHNEIDER, F.; PANIZZON, L. C.; SORDI, A.; LAJÚS, C. R.; CERICATO, A.; KLEIN, C. Eficiência agronômica da cultura da soja (Glycine max (L.) Merril) submetida a co-inoculação. Revista Scientia Agraria. n. 4, p. 72-79, 2017.


Autor(a)

Dr. Anderson Marques

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