Já se passaram 15 anos desde os primeiros relatos de ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi) no Brasil. Durante esse período, o patógeno naturalmente passou por sucessivos processos de evolução e encontra-se altamente adaptado às condições do Brasil. Desde então o controle foi alicerçado no uso de fungicidas. Os equívocos agronômicos criaram situações que favoreceram a seleção de isolados do fungo, com alterações que refletem em menor sensibilidade aos fungicidas. Isso já foi realidade para os fungicidas triazois (DeMethylation Inhibitor, DMIs), dos quais existem relatos de perda de sensibilidade desde a safra 2007/08 e mais recentemente para as estrobilurinas (Quinone outside Inhibitors, QoIs), que tiveram uma queda acentuada de desempenho na safra 2013/14.

Tais eventos foram favorecidos pela utilização de ativos isolados desses grupos, posicionados de maneira curativa/erradicativa sob alta pressão de inóculo. Além disso, como as opções de fungicidas com alta eficácia para ferrugem se restringiam a esses grupos, eram utilizadas até quatro aplicações por ciclo da cultura, submetendo tais fungicidas a uma grande exposição. Por apresentarem alta eficácia, era comum a utilização de grandes intervalos entre aplicações, o que pode ter refletido nos cenários de adaptações vivenciados.

 A alta eficácia desses fungicidas no controle da ferrugem da soja em safras passadas, de certa forma criou uma cultura de que o fungicida era garantia de controle. Então, nesse contexto, não dava-se importância para a cultivar em relação à reação de doenças, não necessitava-se de atenção no arranjo de plantas, não se tinha claro a ligação entre fertilidade de solo, nutrição e doença, e para o início das aplicações era permitido esperar a observação dos sintomas no campo e então, lançava-se mão dos fungicidas. Estes que eram posicionados sob situações de alta pressão de inóculo, como erradicativos, em dossel fechado e folhas mais velhas, diversos fatores que foram refletindo em queda de desempenho.

Tudo isso, juntamente com os eventos de mutações relatadas recentemente, repercutiram, em uma série de alertas de que os fungicidas estão em risco. Se não lançarmos mão de estratégias de boas práticas, podemos perder a eficácia dessas moléculas a curto prazo.

No entanto, nessa segunda semana de março de 2017, o FRAC (Fungicide Resistance Action Committee) lançou um alerta de que foram identificadas isolados do patógeno P. pachyrhizi coletados na safra 2015/16 com alterações no sítio alvo de ligação dos fungicidas carboxamidas (Succinate DeHydrogenase Inhibitors, SDHIs) o que pode estar conferindo assim uma menor sensibilidade do patógeno a produtos contendo ativos desse grupo. No mesmo documento, acrescenta-se ainda que foi detectado, ao nível de campo, áreas com reduzida eficácia de produtos contendo carboxamidas na composição.

Bom, mas já não tínhamos aprendido a lição com o caso dos triazois e das estrobilurinas? Já não se tinha a consciência de que as carboxamidas também eram suscetíveis a resistência? Quais os equívocos que foram cometidos dessa vez?

Sim, já tínhamos consciência de que a eficácia das carboxamidas era suscetível de ser superada a curto prazo e no entanto, equívocos continuaram sendo praticados. Produtos contendo carboxamidas foram lançados no mercado apresentando um alto desempenho de controle da ferrugem. Concomitante a isso, chegaram ao mercado em um momento de nítido decréscimo na eficácia de produtos DMI + QoI, até então muito utilizados. Qual o reflexo disso? Aumento demasiado do uso de produtos contendo carboxamidas. E aquela velha cultura de que fungicidas resolvem tudo. Comumente eram observadas situações em que carboxamidas eram posicionadas em estádios avançados da cultura, sobre muita doença estabelecida e sob alta pressão de inóculo. Tais situações inevitavelmente direcionaram o aumento da pressão de seleção de indivíduos resistentes.

Mas e agora? Como nos posicionar em relação a esse acontecimento?

Obviamente que nos remetemos a uma série de interpretações e é necessário que voltemos a discutir as estratégias de manejo afim de não sobrecarregar o papel dos fungicidas. No entanto, a detecção de um isolado mutante não implica que teremos resistência do patógeno. De antemão, a mutação relatada implica em uma menor sensibilidade (resistência parcial) e será necessário entender como tais isolados irão se comportar em populações, e se a frequência tenderá a aumentar. Além disso, não se sabe ainda qual o grau de redução de sensibilidade conferido pela alteração, se é pequeno, moderado ou alto. Em um outro documento discutiremos as variações estruturais na proteína alvo, subunidades, mutações já relatadas e como diferentes mutações podem impactar nos diferentes graus de resistência do patógeno.

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